Quinta-feira, 19 de Maio de 2005

EXPERIÊNCIA INDIFERENCIADA

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Dedicado ao Lutz
(já com uma caneca de Pilzen na mão e pronta para lhe fazer uma saúde)


Pelos tempos idos de 78, mais ano menos ano, eu era um intelectual ao serviço da classe operária. Militava no PCP como se pertence a uma Igreja. Sabia o catecismo de cor e salteado. Eu só tinha como pergaminho das minhas origens vir de uma família camponesa colocada na miséria mais extrema que o fascismo, com a bênção dos morgados e párocos de então, atribuía como missão a da grande redenção dos pobres - deviam continuar pobres, sempre honrados e eternos católicos (cumpriram até o fim dos seus dias este tripé de obrigações). Mas era um intelectual, apesar de militante comunista e sindicalista num meio operário, apesar dos meus pergaminhos, eu não era operário, tinha tirado um curso e era quadro de uma grande empresa. Tinha, pois, muitos prós e muitos contras. Eu esforçava-me nos prós mas não podia apagar os contras. A minha militância só podia desembocar no deixa andar, na elevação aos píncaros da ortodoxia ou aguentar-me nas terríveis contradições. Eu pertenci sempre, enquanto lá estive, ao último grupo. Resisti à promoção, dei o salto quando lá estar se tornou insuportável e sobretudo demasiado estúpido.

Nesse ano, como nos outros anos, chegado o início do verão, os militantes, em trabalho militante e antecipando a sociedade fraterna, eram incitados a prestarem trabalho voluntário na preparação da Festa do Avante. Apelava-se até que uma parte das férias fosse consumida nessa tarefa. Fi-lo nesse ano como havia feito antes e ainda o faria uns tantos anos depois. Que bonito e edificante era erguer a cidade da fraternidade, o maior acontecimento cultural e político de todo o País, onde toda a gente era camarada e se tratava por tú, vivendo-se o oásis de três dias de igualdade e fraternidade num País que teimava em ser desigual.

Pensava eu que, na construção da Festa do Avante, reduzia os meus contras e aumentava o pecúlio dos meus prós. Aquela proletarização redimia-me, esse era o meu desejo. Assim, apresentei-me ao serviço. Para qualquer serviço.

Na recepção aos obreiros da Festa, fizeram-me um ligeiro inquérito para avaliarem a minha serventia. Não dava para martelar, carpinteirar, levantar andaimes, ligar a electricidade, construir a rede de esgotos. Disseram-me, pois, és um intelectual. Eu disse que assim era, servia a classe operária mas de intelectual não passava. De intelectuais já a Festa estava servida e ainda deviam sobrar uns tantos. E um químico que serventia tinha entre caboucos, barracas de comes e bebes e palcos de espectáculos? Niqueles. Era, pois, um intelectual e um inútil mesmo que ao serviço da classe operária (raios, devia ter escolhido outro curso, para aí electrotecnia ou construção civil, talvez arquitectura…). Decidiram: camarada, vais para o trabalho indiferenciado. Ser indiferenciado custa, sempre me custou, mas a química e a falta de calos determinavam essa minha condição. Vamos a isso, camaradas disse em submissão e com a rubra esperança que mais uma redenção aligeirasse a marca do ferrete de ignomínia que carimbava a minha marca de classe (sob a forma de um "canudo", maldito "canudo", que, para todo o sempre, se interpunha entre mim e a classe operária). Dirigi-me, dócil e disciplinado, ao meu posto de trabalho. O trabalho consistia em levantar tubos de ferro de suporte de andaimes e casotas, levando-os de um sítio para outro, num jogo semi-anárquico em que, por vezes, lembrando Sísifo, os tubos tinham como destino final o sítio onde tinham estado inicialmente em repouso. Um trabalho de equipa e em formigueiro, numa rotina irracional, que cumpri juntamente com outros desclassificados e também intelectuais indiferenciados.

O sol abrasava, o tubo custava a encaixar-se na mão, o transporte era incómodo, mas nada que não se fizesse. E quanto mais suava mais redimido me sentia. E educava a vontade comunista. De repente, vejo um membro da Comissão Política e do Secretariado do PCP, o camarada que me controlava, intelectual tanto ou mais que eu (ele tinha andado na Faculdade de Economia e tinha deixado o curso a meio para se tornar funcionário clandestino), fresco, em mangas de camisa, afagando a barbicha que usava como imitação de Lenine, rindo-se a bom rir do meu esforço e falta de habilidade. Não me ajudou, não me deu uma palmada nas costas, não me deu a benesse de um olhar cúmplice, não fez um risco de pró na minha caderneta de militante. Não era meu camarada aquele camarada, era mais que isso, Ele mandava, Ele pertencia ao Olimpo da Vanguarda do Proletariado Português. Riu-se e seguiu adiante no seu trabalho de inspecção, contentinho pela aula dada sobre a diferenciação dos papeis no centralismo democrático. Eu continuei enquanto tive forças. No outro dia, nos outros dias, voltei. Disse para mim próprio que não estava a correr nada mal a minha formação em marxismo-leninismo pois os tubos metálicos já eram menos difíceis de segurar na mão. E, até a Festa abrir portas, eu não tornei a essa terrível condição de intelectual, tinha ascendido politicamente à categoria de trabalhador indiferenciado ao serviço da cidade do Partido. E assim tinha um pecúlio amealhado para gastar até à próxima Festa.
publicado por João Tunes às 21:00
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6 comentários:
De Carlos a 21 de Maio de 2005 às 01:58
colo frases: "Os comunismos cometeram a proeza de conseguir louvar o proletariado de tal forma que os "intelectuais" se sentiam envergonhados da sua condição", "Daí uma certa pose miserabilista" e "Ainda há quem não tenha entendido que o proletário miserável está farto de ser proletário e de ser miserável...", do Miguel. Remata a Guida: "Em tempos diriam outros que eu me tinha "aburguesado"... Nas tintas!!!". O texto do João está um colosso, como bem conta o Lutz que a Helena disse, "de antologia".


De Lutz a 20 de Maio de 2005 às 22:00
Uma história, como a Helena disse no seu blogue, de antologia!


De Joo a 20 de Maio de 2005 às 15:41
Ó Guida, mas "pintora" já era trabalho qualificado. Era preciso ter know-how como diz o Miguel. Salva-se a memória da generosidade, em parte inútil mas sentida, a que se refere o toix. Abraços a todos.


De Miguel Silva a 20 de Maio de 2005 às 12:55
Isto serve para mostrar que até para ser desqualificado é preciso know-how. Brincadeiras à parte, conheço outras histórias com outros protagonistas de teor semelhante. Os comunismos cometeram a proeza de conseguir louvar o proletariado de tal forma que os "intelectuais" se sentiam envergonhados da sua condição. Tudo o que cheirasse a burguesia, ou a aburguesamento, era para desconfiar. Daí uma certa pose miserabilista, muito notória no gaurda-roupa, por exemplo. Ainda há quem não tenha entendido que o proletário miserável está farto de ser proletário e de ser miserável...


De toix a 20 de Maio de 2005 às 09:41
Sei do que fala, muita gente se deve rever nesta sua história. E o mais triste desse enorme logro, é que as pessoas foram levadas pelo que de melhor têm em si, a generosidade.


De Guida Alves a 20 de Maio de 2005 às 00:05
Pois é, amigo João. A ti os tubos, a mim a tinta. Quem nada sabe, vai para aprendiz de proletário. E o que mais me lixava era o tal "olho de capataz", crítico às vezes, as mais delas descontente. Para esse peditório já deixei de dar há alguns anos, quer na montagem da Festa, quer na manutenção dos seus três gloriosos dias. Ainda disfruto dela, gosto de encontrar por lá os velhos amigos, de aplaudir os concertos, de provar bons petiscos, mas agora com "passaporte de turista". Em tempos diriam outros que eu me tinha "aburguesado"... Nas tintas!!! Perdi foi a vocação de formiga, escolhi ser cigarra. Beijão.


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