Quarta-feira, 18 de Maio de 2005

A VIA DIFÍCIL DO RESSENTIMENTO COMO CAMINHO PARA A LIBERDADE

capt.sge.ksk60.270405202006.photo00.photo.default-387x254[1].jpg

Mais tarde ou mais cedo ia acontecer. Ou seja, o Lutz responder ao meu post em que o interpelei.

Começo por dizer que a resposta do Lutz me irritou. Muito. Primeiro, porque acho que ele se susceptibilizou em demasia, remetendo-se para o papel doce do estrangeiro que se quer bem comportado. E um estrangeiro de pantufas era o último dos papéis em que, desde que o leio, imaginava o Lutz. Depois, porque me atribuiu sentido de missão de defesa de “sensibilidades nacionais” (chiça!). Finalmente, principalmente, por eu me ter sentido (mais uma vez, maldito defeito) profundamente inábil em exercer o gozo de debate e a troca de provocações sem que isso erice espinhos de auto-defesa ou auto-justificação.

Irritou-me. Verdade, irritou-me mesmo. Mas já passou.

Vamos lá dividir a coisa em partes. A primeira, em tudo em que o Lutz se justifica como imigrante, passo adiante. Interessante mas não vem para o caso. Porque não diminuo em nada o direito de qualquer pessoa (nacional ou não nacional por nascimento) opinar o quer que seja. Por entender que todos somos cidadãos do mundo. Cada um tem direito a opinar sobre tudo e a única diferença é a solidez em que assenta as suas apreciações. E não reconheço direitos de exclusividade tribal na apreciação e julgamento do quer que seja neste planeta que é nossa pátria única.

Opinar é diferente de se intrigar.

Quantas vezes o Lutz opinou sobre os nossos domésticos assuntos e que, na maior parte das vezes, aplaudo em silêncio de concordância. Porque o acho arguto e porque levanta a fasquia do exercício da opinião. Outras vezes, nem por isso, como acontece amiúde com qualquer luso opinativo. Já vivi muito, demais, no estrangeiro. Mas nunca tive o talento do Lutz de tão bem se meter no papel de “nacional” nos sítios por onde andei. Portanto, quanto a isso, se reacção tenho à sua integração é a da típica “inveja à portuguesa”. Que só não me inferioriza porque me torna mais português (pelo menos, segundo José Gil).

Intrigar-se é diferente. É sublinhar uma dúvida, uma perplexidade, e deixá-la no ar como um sinal de mistério, de algo que escapa ao entendimento até do senso comum. No fundo, considerá-lo como aspecto ou aspectos exóticos no mapa das sociedades humanas. E Portugal, Alemanha, Guiné-Bissau, Siri-Lanka, seja o que for, não são exóticos, são sociedades com as suas histórias próprias abertas ao decifrar. E nenhuma merece suspense de impotência. Tem-se ou não unhas para isso, mas não há nada que a vontade de entender não ultrapasse.

Não gostei que o Lutz se intrigasse, tornando-nos exóticos. E tentei confrontá-lo com dados que, se não explicam, ajudam a explicar ou questionar certas orientações de escolha do eleitorado português.

Julgo que o Lutz coloca as questões do esclarecimento sobre as grandes questões da democracia, da liberdade e da igualdade, num nível muito acima do senso comum. E, por isso, faz um corte de percepção com o eleitorado. E a massa do eleitorado é mais senso comum que outra coisa.

Como em qualquer sociedade, a sociedade portuguesa tem uma história de que ainda não sabemos todas as marcas. Sobretudo quais as dominantes hoje. Dessa história, nasce a nossa incapacidade de construir um projecto, ou seja, um rumo para o futuro. Esse o nosso grande mal. Uma verdadeira tragédia, acrescento. Assim, o peso dos ressentimentos é enorme. Mais trágico, ainda. Porque as ideologias dos ressentimentos conduzem ao passado. E, pelo passado, não há projecto que sirva, sobretudo num mundo em acelerada mutação. Pior, o ressentimento leva à fantasia, à edificação de tabus, à glorificação de âncoras, às fixações, à cristalização do amigo e do inimigo, à perenidade dos medos e dos fantasmas, aos mitos.

O salazarismo cultivou uma passividade repressiva que interiorizou o ressentimento. Ao mesmo tempo, um sentimento de culpa e de inferioridade. Sobretudo fez o medo descer pelas veias e pelos nervos, atingindo a alma. O salazarismo foi um pesadelo a que a maioria dos portugueses se habituou, cada um se apoucando como podia e sabia, diminuindo-se, corroendo-se. A revolução fez a catarse parcial do ressentimento da não liberdade política e da falta de liberdade de expressão. Mas não resolveu, não o podia fazer senão por uma deriva colectivista e populista, os ressentimentos pela sociedade estruturada económica, social e de classes que o salazarismo legou. Chegou-se a um ajuste de contas, num perde-ganha dos idos 1975, em que as duas catarses entraram em conflito. Ou ganhava a liberdade e se recuava na redenção social, ou se sacrificava a liberdade para se ajustarem contas com a ordem capitalista de nossa herança. Felizmente, sabe-se qual o vencedor. No meu entender de hoje, o justo vencedor. Mas pagamos, em termos sociais, um preço elevado por isso pois as assimetrias foram exponenciadas.

A reconstituição da ordem capitalista em Portugal, mesmo com a ajuda da UE, não resolveu, muito longe disso, as assimetrias sociais. Mais, a desarticulação do aparelho das estruturas económicas do salazarismo, a modernização do aparelho produtivo e dos sistemas de trabalho, expeliu empresas e gentes para o deserto e a desinserção social. Muitas empresas, muita gente. Demais para a capacidade de abrigo de um Estado exaurido de meios de protecção. Inevitável era que o ressentimento social se ampliasse.

Um ressentido social não é o leitor ideal do mundo e da separação da ganga das suas experiências. Também não é o mais recrutável para ser um militante e paladino da liberdade, das liberdades. Porque a liberdade é algo que manteve ou trouxe o ferrete da exclusão. E ninguém gosta de ser excluído. Para mais, mas de importância nada pequena, há a liderança do ressentimento, aqueles que aparentando jogar o jogo democrático, preparam a troca da democracia pela oportunidade da revolução. São os que atiram à cara das liberdades as desigualdades sociais não resolvidas, com o poder de atracção de terem tido um papel histórico de luta e de heroísmo que vem do anti-salazarismo. Os que tornaram Cunhal numa referência de personalidade estimada no “politicamente correcto”, que hoje recuperam Stalin e não deixam que se puxem as barbas a Fidel para “não fazerem o frete a Bush”. Afinal, na falta de uma direita fascista que se veja, os verdadeiros herdeiros do salazarismo (alimentando-se das suas fracturas). Não tenho dúvida, que o PCP (e nisso, muito mérito tem) e a sua CGTP, é o grande líder dos ressentidos, o grande cristalizador do binómio liberdade-igualdade herdado do fascismo português e não resolvido na revolução de 1974 nem depois.

Se se deu ao trabalho de analisar a evolução dos resultados eleitorais do PCP, o Lutz verá que, consoante a sociedade portuguesa se vai tornando mais adulta (porque mais jovem e irreverente relativamente às dicotomias e às cristalizações) e mais moderna, as bolsas eleitorais do marxismo-leninismo se vão confinando. O PCP perdeu a ambição de ser um partido nacional, é um partido acantonado em bolsas de ressentimento localizadas onde o salazarismo deixou marcas mais fundas de pressão social e marcas opressivas. Se a transformação da sociedade portuguesa tiver a capacidade de baixar o nível da exclusão e do ressentimento, mantendo as liberdades, o PCP desaparecerá por velhice e inacção. Falando, por exemplo, do Alqueva, essa bandeira vermelha alentejana, se o seu projecto se finalizar expandindo o regadio, você verá que o amado e mitificado Alqueva será o dobre de finados da influência comunista no Alentejo.

Dito o que disse, não se deduza que nego o direito ao ressentimento. Nem à memória do ressentimento. Muito menos a que eles se exprimam eleitoralmente. Porque a culpa, a grande culpa dos ressentimentos, não está em eles existirem, muito menos que o PCP os saiba explorar para sobreviver. A culpa pelo ressentimento é a incapacidade, ou impotência, em extirparmos as raízes que o alimentam. E, para isso, é preciso tempo, paciência, decisão, projecto. Enfim…
publicado por João Tunes às 17:59
link do post | comentar | favorito
|
5 comentários:
De Joo a 20 de Maio de 2005 às 15:53
Ó Guida tudo o que propões como alternativas são bebidas demasiado fortes para um alemão (Lutz) e uma alemã (Helena). Não se aguentavam nas canetas. Eles e elas só funcionam a cerveja (e salsicha). Fica desde já combinado para o Cais do Sodré (atenção Lutz, não é na Cervejaria Alemã à esquerda de quem sobe a Rua do Alecrim, será no British que é terreno neutro...). Grande grupo, ganda nice. Avante!


De Lutz a 20 de Maio de 2005 às 09:12
João, disse na minha loja:
Estou pronto para beber uma cerveijeca no cais de Sodré, em (quase) qualquer altura.
Mas o que também gostaria, era bebermos uma todos juntos: Helena, Miguel, Sara, MP, C.Índico... e o RN, claro!
E a Guida Alves está bem-vinda também, mesmo se só bebesse uma aguinha...


De Guida Alves a 20 de Maio de 2005 às 00:12
Eu alinho no desafio da Helena! Mas cá por mim iria melhor numa ginginha, um moscatel de Setúbal ou mesmo um Favaios. Mas se é para esperar até Outubro, sempre me dá algum tempo para tentar gpstar de cerveja...;))


De Joo a 19 de Maio de 2005 às 23:20
Helena, mais que estilo talvez uma questão de pretexto para conversar (falo por mim). Mas trata-se de um papo entre cavalheiros, julgo. Quanto á cervejinha pela paz, claro que alinho e dou à escolha: Pilzen ou Guiness... (o que implica que a festa seja ou em Praga ou no Cais do Sodré). Eu preferia Pilzen em Praga mas submeto-me ao British Bar no Cais do Sodré. Organize lá isso.


De Helena a 19 de Maio de 2005 às 18:02
Fico sem saber se deva escrever aqui ou no Quase em Português, e por isso vai com cópia para os dois:
Um dos problemas da internet é que a gente não tem o calor da voz para pressentir o tom irónico ou o estado de espírito, nem tem a possibilidade de perceber nos olhos do interlocutor o momento em que, sem querer, se atravessou uma fronteira. O outro problema, é que a gente escreve com uma certa pressa - isto é mais um rascunho que a versão final de uma tese de doutoramento.
Mais vale ter isso sempre presente, e não se prender demasiado a dissecar detalhes de frases alheias.

Reli o que escreveram os dois, e parece-me que o problema foi despoletado e cresceu por meras questões de estilo. Valha-nos ao menos a cultura e a capacidade de análise dos dois, que conseguiram resolver o conflito com posts notáveis sobre o PC em Portugal e sobre o exercício da cidadania.

Proponho criarmos o Movimento Cívico "Uma Cervejinha Pela Paz", e peço que esperem por mim até Outubro, para o acto inaugural numa cervejaria à vossa escolha.


Comentar post

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Setembro 2007

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30


.posts recentes

. NOVO POISO

. SOBRE A EDUCAÇÃO TESTEMUN...

. UM ÁS DO CASTRISMO

. SOBRE A EDUCAÇÃO TESTEMUN...

. SOBRE A EDUCAÇÃO TESTEMUN...

. ENTÃO, O QUE TENS FEITO ?

. O QUE TEM DE SER A EUROPA...

. O QUE TEM DE SER A EUROPA...

. O QUE TEM DE SER A EUROPA...

. QUE FORÇA É ESSA?

.arquivos

. Setembro 2007

. Junho 2005

. Maio 2005

. Abril 2005

. Março 2005

. Fevereiro 2005

blogs SAPO

.subscrever feeds