Terça-feira, 17 de Maio de 2005

SOBRE A INTRIGA DO LUTZ

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Falando do delírio de sinceridade do Taverish Leandro, o estimado Lutz desabafa:

“Não me agrada muito, mas talvez tenha de invocar a estafada razão de eu ser alemão, e daí reclamar uma vocação para me preocupar com a loucura mais intrinsecamente relacionada com o meu país. Não leio o Avante. O que me poupa de ter que ler lixo absoluto como este. E sempre me intrigou como o PC pode ter, num país livre, 6%, 7%, ou até 10% de votos. Enfim, haverá explicações históricas, sociológicas.”

E eu, por frontalidade merecida, não posso, perante esta forma lapidar de se ser selectivo no apoucar, de ter de reagir. É que, caro Lutz, as explicações históricas e sociológicas nunca são um enfim. Pelo contrário, são sempre um porque ou um começo.

Antes do mais, o que se resolve, ou onde se vai, através do exercício acrítico da perplexidade?

Depois e em substância, deixo-lhe um molho de perguntas para sua reflexão:

- Não o intriga que Chirac seja PR dos franceses, Berlusconi chefe dos italianos, o Partido Social-Democrata Austríaco se coligue com a extrema-direita, um Coronel do KGB seja novo Czar da Grande Rússia, Kumba Ialá se auto-proclame Represidente, Guebuza (um ex-torcionário) seja Presidente eleito de Moçambique, Bush tenha a sua base social numa das mais pobres (mas de maior crescimento) das suas colónias (a hispano-americana), a maior penetração e expansão dos neo-nazis alemães seja na ex-RDA, Durão Barroso seja o Presidente da Comissão Europeia, Santana Lopes seja o Edil da Capital de Portugal, o Presidente da Câmara de Coimbra presida à bênção da um monumento aos “heróis da guerra do ultramar”, um pároco do Porto diga que o aborto é pior crime que o assassinato de uma menina de cinco anos, que este net-mundo pacóvio se levante em solidariedade para com um despassarado que fumou uma ganza proibida no Dubai e não levante um dedo de indignação para com trabalhadores portugueses deficientes mentais que são escravizados em trabalhos de vindima em Espanha, Fidel diga que a oposição em Cuba não passa de 1% mas se recuse a permitir eleições livres, os bispos de Timor construam com imagens da Senhora de Fátima um estado teocrático, Ratzinger seja Papa, passada a repugnância inicial que a grande tolerância se exprima hoje para com os erros judiciais que seviciaram os arguidos dos casos de pedofilia e de dimensão agigantada face ao esquecido sofrimento irreversível das crianças-vítimas, um paneleiro que por levar no cú (dizendo-se gay por isso!) tenha maior ribalta dos média que muitos milhares de desempregados em idade de impossível reinserção profissional?

- Porque o intriga que este País menor, porque menorizado, encurralado em quase cinquenta anos de arreata, sacristia e bufos ao serviço da polícia, se sinta no direito à desforra e, nesse desejo não exaurido, descarregue ainda 7% no fadista Jerónimo e se comova na saudade do Companheiro Vasco?

- Porque o intriga que uma geração ainda não desaparecida de dignos alentejanos e ribatejanos queiram vingar as memórias das praças da jorna e da GNR a cavalo ao serviço de senhores feudais que lhes davam a fome e lhes violavam as mulheres segundo o direito de pernada, mantendo votos de vingança nos únicos que os apoiaram nos anos de fome e de opressão?

- Porque o intriga que os operários despejados de indústrias não competitivas e de formação mínima, oriundos o mais das vezes da fome camponesa, na falta de Bento Gonçalves, se revejam num metalúrgico bem falante a bater-se com os doutores?

- Porque o intriga que aqui, como em tantos outros lados, na falta da experiência letal do PC no poder, parte da intelectualidade ainda não tenha capacidade de superar o axioma do antifascismo e não seja capaz de recusar todo e qualquer ovo em que incube a serpente da tirania?

Meu caro Lutz, cada País, mesmo livre, tem os seus mistérios abertos à decifração. Assim se queira. Queira-o, por favor, já que nos escolheu (suponho que não seja exilado político), para que se sinta nosso e nós, os que temos a fatalidade de aqui termos nascido e gostamos de o ter connosco, o sintamos assim também. Este País é estranho, dá mais raiva que prazer, mas não é do reino das bruxas o seu poder e entender. Porque, vendo bem, afinal é só um País como os outros, quando muito exigindo uma chave diferente para o decifrar.
publicado por João Tunes às 16:46
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