Quarta-feira, 11 de Maio de 2005

A HONRA DE CÂNDIDA VENTURA E UM CANALHA BARNABÉ

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As voltas à volta da coerência dos percursos são sempre complicadas. Há quem siga sempre pela mesma estrada, quem vá por um caminho e entre na auto-estrada, quem se desvie por atalhos. Para o caminhante, as contas a prestar são com a sua consciência, os outros que lhe apreciem os actos.

Daniel Oliveira, segundo ele mesmo, foi do PCP e hoje é dirigente do Bloco de Esquerda. Hoje só pode e deve ser apreciado na sua última qualidade política adquirida. Eu posso dizer dele o bloquista Daniel Oliveira, não devo chamar-lhe, por decência e por respeito à sua mudança, o ex-pcp Daniel Oliveira.

Não tenho qualquer apreço pessoal ou político para com Zita Seabra. Mas, para mim, trata-se apenas, hoje (e hoje é que interessa), de uma “figura da direita”, condenável segundo os meus critérios políticos, pelas posições que toma enquanto política e enquanto deputada. O que não lhe retira minimamente o direito e a respeitabilidade em defender as suas posições e tentar que elas vinguem, sujeitando-se ao contraditório. Não embarco, não embarcarei, a meter no combate político contra as posições de Zita Seabra (ou outra personagem) o ferrete afiado das suas mudanças de opinião, de ideologia e de convicção. Talvez porque eu também mudei, como o Daniel Oliveira e tantos outros mudaram com o direito de mudar.

Zita Seabra tornou-se na “besta negra”, no paradigma da traição, a mulher que, porque mudou e mudou muito, está condenada ao silêncio segundo o “tribunal popular” de alguma opinião, tão sectária que não prescinde de um “animal” de sacrifício para meter na fogueira. O contraditório não é suficiente, havendo lenha para queimar. Na minha opinião, é uma indignidade que inferioriza perante a política e a pessoa Zita Seabra.

Mas, segundo Daniel Oliveira, se Zita Seabra só pode existir para ser insultada, há pior ainda, mais “bestas negras”, as dos maus exemplos que ela estará a imitar. E falou assim: ”Zita Seabra é uma nova Cândida Ventura, um novo Chico da CUF. Uma ex-comunista que nunca conseguiu ser mais do que uma ex-comunista. Uma medalha de latão que ninguém quer levar para casa. Uma história triste.”. Pois, segundo DO, Zita Seabra nem sequer terá o mérito da originalidade, imita os grandes repugnados – Cândida Ventura e Chico da CUF. Lembrando, perigosamente, os procedimentos de Lubianka, pelo encadeado de atribuição de cumplicidades que levaram tantos ao paredão.

Depois, nos “comentários” ao mesmo post, DO esclarece melhor o que entende pelo que é fétido na comparação e nos maus exemplos de perdição e traição – “Cândida Ventura acabou a sua vida a apoiar a direita e a falar da Hungria e da Checoslováquia a propósito de tudo e de coisa nenhuma. No fim da vida estava já politicamente próxima do CDS. De resto, Zita Seabra também foi uma antifascista, clandestina do PCP a partir dos 15 anos. É bom não esquecer.”

E, aqui, o paredão funcionou na mente persecutória de DO. Ele já havia executado politicamente a Cândida Ventura, ela já deixara o reino dos vivos. Porque DO lhe “acabou a sua vida”.

Não acertou, Tchekista Daniel Oliveira. Falhou. Apontou mas falhou. Cândida Ventura está viva e recomenda-se. Nos seus 87 anos de idade, arguta, inteligente, digna, linda. Lúcida e em luta, escrevendo e dando aulas. E eu sou feliz por contar com a honra da sua estima, amizade e convívio. Com as suas convicções. Que eu discuto mas não aniquilo. Como ela discute as minhas opiniões e me respeita. Com um passado honrado, de luta, da mulher antifascista que mais sofreu às mãos da Pide. Entre as mulheres que mais lutaram para esta nossa liberdade de estarmos aqui a embirrar um com o outro. O problema velho com Cândida Ventura não é, sabe-se, pelo que ela mudou. É pelo muito que ela sabe, sabendo-o porque esteve dentro de algumas “misérias” que também rechearam a luta pela liberdade e pelo socialismo. E não se submeter à “lei do silêncio”. Daí vem a substância dos ódios a Cândida Ventura, a mais perigosa porque é que mais sabe. Depois, vêm Chico da CUF, Zita Seabra, mais uns tantos. Podiam ser Trotski, Zinoviev, Kamenev, Bukharin, Slanski e outros estrangeiros. Mas aqui, como convém, os ódios insanos tinham de ter nomes portugueses.

Julgo estar com Cândida Ventura na próxima semana. Riremos da sua canalhice, ó Tchekista DO. Você não fuzila, valha-nos. Você não cala. Você só imita o pior. Porque pertence ao pior, tendo escolhido o pior terreno para fazer política e assassinar adversários.
publicado por João Tunes às 17:28
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5 comentários:
De dizeresmeus a 13 de Maio de 2005 às 17:03
o DO tem vindo cada vez mais a demonstrar que mudou. Se antes era a imagem (até com graça) do esquerdista convicto que defendia os fracos e oprimidos, hoje tornou-se naquilo que sempre criticou: uma pessoa sem poder de encaixe, fria, azeda e insultuosa. Ficou com as vistas curtas, tornou-se um estalinista persecutório, e isto infelizmente, porque perdeu toda a graça que era o que lhe valia.


De Paulo Toms a 13 de Maio de 2005 às 13:14
Para este tipo de pessoas é mais fácil puxar o gatilho da demagogia do que lavar a cara em frente ao espelho. Porque a imagem reflectida, distorce a realidade, dando impressão de serem alguma coisa do que não são.


De RN a 13 de Maio de 2005 às 02:33
O DO deve lá ter estado bem menos tempo que nós. Será que no BE cultivam o Santo Ofício?
O Werewolf chama a atenção para um aspecto interessante, o das razões de saída do convento. (Uso "o convento" mais para aos que envergavam o hábito, como eu e outros, do que para os que eram simples ovelhas do rebanho)
Estou-me a recordar da diferença de respostas ao microfone dos media, de João Amaral e de Edgar Correia. O primeiro disse de nós dos que saímos uns anos antes: bem, na altura reagi como os outros mas hoje vejo as coisas de modo diferente. O sentido era este. E Edgar, ele já expulso, expulso que antes nos expulsou? Não, com eles foi diferente. Eles foram expulsos por actividades fraccionistas (no Hotel Roma)nós não.
Conheci e fui amigo! de comunistas que o eram principalmente por amor ao autoritarismo! ´Por esse critério quando na AR olhava de longe para o hemiciclo mais que uma vez me surpreendi a arrumar melhor os deputados pelos diferentes grupos parlamentares. E havia muitas mudanças. O fundo democrático ou autoritário é um dos bons critérios para joeirar a política.
Vale!


De absurdoponto a 12 de Maio de 2005 às 21:13
pois é!... está difícil viver e pensar! cada vez mais difícil...


De Werewolf a 12 de Maio de 2005 às 13:11
Pois é João esse artigo do DO (menor entenda-se) no Barnabé, só nos vem alertar para as práticas persecutórias, antigas e actuais, que que se mantêm em muitos dos ex-PCP. Será que eles mudaram mesmo ou apenas viram a carreira política no interior do partido ameaçada.

Os Barnabés são uns rapazes engraçados que escrevem umas coisas giras, gostam de polémica, tem um nível cultural elevado (pelo menos livresco), mas continuam agarrrados aos mesmos chavões e dogmas do partido iconoclasta da esquerda portuguesa, pelo menos o DO, quanto aos outros não sei, até porque já só sou um leitor ocasional dos seus artigos.

Subjectivamente, ou será que me engano, os DO's da nossa terra acabam por ser aliados naturais da snha persecutória de Ratzinger contra a "ditadura do relativismo".

Bolas, não tenhamos DO deles.

Abraço relativamente apertado.


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