Quarta-feira, 11 de Maio de 2005

NUMA QUINTA

espiga[1].jpg

Um dia destes, telefonando a um amigo, ribatejano adoptivo, ele deu-me conta, com alguma irritação, sei lá porquê, que nesse dia, Quinta-Feira de Espiga, era feriado municipal no seu burgo de abrigo. Eu lembrei-me logo de uma memória e fiz-lhe paródia macha com ditos de cumplicidade marialva, ele riu-se e assim ficámos no efémero da risada sem sombra de pecado nem de mérito. O telefonema finou-se, a conversa também, mas a memória, raio da memória, ficou-me a trabalhar.

Pois a Quinta Feira de Espiga, sempre que nela tropeço, recua-me a uma memória e a uma fobia.

Andava pelos catorze anos e ainda a Escola Alfredo da Silva (então fábrica de operários especializados para a CUF), no Barreiro, estava novinha da sua estreia. Entre gozos e tormentos, o tormento maior era a separação rígida, quarteleira e seminarista, segundo os cânones salazarentos, entre rapazes e raparigas. O que abrangia uma data de metros de perímetro envolvente. E nos acumulava desejos pelo fruto interdito. Nas tais Quintas Feiras, as da Espiga, talvez pela invocação religiosa associada ao dia, havia vara larga consentida para liberdades fora dos muros da escola. O pessoal era dispensado e rumava pelos campos para colheita da espiga. Por norma, e então no Barreiro, procurar espigas que resistissem aos ácidos que acabavam em adubo, tinha de ser longe. O que, no caso, era uma vantagem porque concedia liberdade acrescida aos olhares vigilantes dos tutores da moral e dos pais estremosos. Íamos, então, para a Quinta da Lomba, um enorme descampado, na periferia da Vila, inundado de chaparros e de tudo que a Primavera oferecia. O sol aquecia com quentura retardada, o rosmaninho e o pampilho entravam olfacto dentro, as papoilas acenavam a lembrar bandeiras do sangue que nos fervia, os chaparros ofereciam sombras de abrigo, a liberdade despertava desejos de transgressão. Um paraíso, afinal. Sem que isso tivesse programado, nessa Quinta Feira arranjei, sem saber ler nem escrever, uma namorada por um dia. Era uma moçoila mais velha, de faces quentes, desenvolta nas formas e no desejo de fruir vida. Começámos a namorar à chegada à Quinta da Lomba e, tardou nada, estávamos de ramo de espigas na mão a celebrar o imprevisto no abrigo de um chaparro. O beijo veio e aquilo soube mais a saliva que a outra coisa melhor. Mas deu para sentir o sexo a lutar contra a vergonha e a declarar-se apertado nos limites das calças. Entretanto, os seios impantes da jovem namorada não paravam de me acenar. Com suavidade, dedos delicados mas persistentes, subi-lhe mão para o decote procurando mimo grande. O volume era desafiante e adivinhava-lhe tremuras, reais ou imaginadas. Encontrei-lhe o caminho do afago. Mas, no contacto, o desastre deu-se. Um soutien, mais espesso e duro que uma armadura, bem amarrado ao corpo, oferecia o contacto frio de pano rijo e a pele alva, o mamilo imaginado, não se abriam como a espiga que tanto me apetecia. Não me entendi com a coisa e as voltas que eu dei e suei para bem porfiar. Até que o trabalho no desate que não desatava nos cansou aos dois. Acabámos ambos por ficar deitados, lado a lado, mão na mão, a olhar o céu para o espreitar como faziam as papoilas, os pampilhos, o rosmaninho e as espigas. Veio o riso da amizade e o namoro foi-se como veio, breve.

Passou este namoro rápido, disse-o e repito. Mas não me passou a fobia entranhada ao soutien de pele rija armado em adereço de castidade. Odiei-os para todo o sempre, jurei vingar-me, imaginando até pegar fogo a uma das suas fábricas. Afinal, a redenção veio por empréstimo. Vinguei-me quando, logo depois do 25 de Abril, num excesso que era a fruta da época, umas feministas radicais resolveram fazer queimas do soutien na via pública. Libertavam-se assim, diziam elas. Sem saberem que me libertavam de uma fobia que me durava desde uma Quinta Feira de Espiga perdida na Quinta da Lomba. Foi uma catarse que as minhas irmãs feministas me concederam à borla. Agradecido fiquei e fico. Há muito vivo sereno, aquilo põe-se e tira-se e só se usa quando os dedos ainda estão distraídos na procura. Mais difícil, muito mais difícil, é encontrar molho de espigas que dê cenário adequado à celebração.
publicado por João Tunes às 00:02
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6 comentários:
De Joo a 13 de Maio de 2005 às 16:44
Isso gostava eu de saber - se os obstáculos são semelhantes!!!


De Guida Alves a 12 de Maio de 2005 às 02:07
Pois é, João, hoje (ontem) acho que foi o meu dia de "deixas" algo confusas. Não fosses tu a por os pontos nos i's, e ainda se arranjava por aqui uma boa caldeirada...
Mas quabnto ás inabibilidades, se bem que sempre diferentes, acabavam por esbarrar sempre em obstáculos semelhantes!;))


De Joo a 11 de Maio de 2005 às 20:39
Fique esclarecido, ó Guida, que não entraste neste filme e nunca foste minha namorada (mesmo que por um dia). Amiga sim, irmã, isso sempre. Só e chega porque é tanto sem ser demais. Quanto às inabilidades, não há duas iguais. Portanto a minha "figura", tira o cavalinho da chuva, que não a conheces. Retira o "vossa" sff. Abraço garnde.


De Guida Alves a 11 de Maio de 2005 às 20:14
ahahahahah!!!!!!!!!!!!!!!!!.......................
Pela minha parte, sei qual é vossa figura num assédio provocado, desejado, intentado e falhado!... Beijo.


De Joo a 11 de Maio de 2005 às 12:41
Já conhecia esse maluco cómico. Mas aquilo é mais assustador que o mais hermético soutien... Abraço.


De Carlos a 11 de Maio de 2005 às 10:20
Ontem descobri um maluko que, na ilha de Porto Santo, transforma todos os dias em 'dias da espiga'. É o 'malapata', nome de blogue e (para mim) risada. O dito cujo não precisa de turquêz ou alicate para desatar os porta-melões de que é fã confesso, e exibe provas qb. Que tal uma tournée por lá, João? E não é viagem a solo pois há um frade que já tem a trouxa pronta para abalar rumo a esse El Dorado Wonderbra...
Bem, amanhã vocês discutem pormenores e acertam essa coisa dos vistos pois o Alberto João pode pôr-se de modas quanto a cubanos, mesmo que de batina albardados.


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