Terça-feira, 10 de Maio de 2005

NOS SESSENTA ANOS DA RENDIÇÃO DO REICH (4)

buchen.jpg

Há quem suporte todas as dores espetadas nas convicções. Através da sublimação num ideal redentor que tudo limpe, acreditando no homem novo, limpando-nos a todos, pobres e ricos, inteligentes e burros, bravos e canalhas, feios e belos, gente de mãos limpas e outros com as veias podres pela disponibilidade de serem carrascos se necessário, tudo reciclado na grande Lavandaria da Igualdade.

Desde que visitei Buchenwald, uns vinte e cinco anos atrás, que choro um pouco de mim pelo que vi, me deixaram ver. A besta estava ali na minha frente. Eu odiava Hitler, passei a odiá-lo mais ainda. Num ódio infinito, já não por ele, mas por aquilo que ele teria de humano e à minha pele me estava agarrado. Pelo pânico de que eu, eu mesmo, colocado na mesma patologia de poder e de ódio, podia ter sido um SS ao seu serviço e teria enfiado o que calhasse, o que me mandassem, num daqueles crematórios. Chorei e choro pelo inumano que pode haver no humano, porque sei que gentalha daquela está aí ao virar da esquina, à espera da sua oportunidade, decorando até um inofensivo blogue com palavras de efeito pelo direito à irresponsabilidade.

Julgo que cresci e, na crise de crescimento, deixei de acreditar na Fábrica do Homem Novo, perdendo o amuleto das desculpas vendidas na tribo. Fiquei-me homem perante homens. Cedi, entretanto, à hoje famosa “ditadura da relativização”, a heresia dos tempos modernos. Porque, não sendo santo, me quero tornar um decente humano entre humanos, entendendo-os, com eles me misturando. Sem direito a desculpas, perdão ou redenção. Não perdoando a barbárie que deu lugar a Buchenwald, mas também não desculpando os que, em nome da Fábrica do Homem Novo, como hoje na Cuba de Fidel, usam a máquinas de qualquer extermínio humano com o mesmo à vontade que um fascista degenerado pelo ódio a usava.

Continuo a chorar Buchenwald. Sobretudo, depois de a conhecer. Sobretudo desde que soube o que, na altura, não sabia e não se podia saber – que a Buchenwald do nazismo, onde a besta nazi tinha construído um campo de extermínio do humano funcionou ainda mais cinco anos (após a sua “libertação”) para reduzir a pó 20.000 vencidos, provavelmente gente indecente e de mãos sujas, mas gente, gente do homem velho. Para quê? Para parir na Alemanha o homem novo, sob assistência de obstretas soviéticos. O homem novo a guiar um Trabant, o das medalhas olímpicas, o da Stasi e o da festa na queda do Muro da vergonha, o da minha vergonha porque neles acreditei. E, hoje, choro mais Buchenwald que quando a conheci. Afinal, por via da grande utopia, sem que mal a outros tenha tido tempo e oportunidade de fazer, está lá uma agulha minha naquele arame farpado que por lá sobrou.

Adenda: Não posso deixar de acrescentar a precisão que a Helena, amavelmente, acrescentou à laia de "comentário". Aqui fica:
"O sistema nazi estava organizado para "poupar" os soldados alemães: as tarefas a executar pelos alemães estavam divididas em parcelas relativamente "inócuas", enquanto que o trabalho horroroso era feito pelos próprios prisioneiros, em troca de mais alguns dias de vida ou a promessa de salvar um ente querido. O sistema tentava por todos os meios evitar aos soldados situações em que eles tivessem problemas de consciência (por exemplo, o trabalho nos crematórios) - enquanto que o dilema do prisioneiro era terrível; ao mesmo tempo, entendo bem o seu sentimento de horror perante a possibilidade de qualquer um de nós se transformar num sádico prepotente, se estiverem dadas as condições para isso (houve um estudo americano a propósito - falou-se disso em Portugal? Aqui foi bastante falado na altura em que se descobriu o escândalo de Abu Ghraib). - Dos 20.000 que morreram em Buchenwald às mãos dos russos, entre 1945 e 1950, nem todos seriam "gente indecente e de mãos sujas" - provavelmente muitos deles foram lá parar sem tribunal nem lei, tal como muitos afegãos em Guantanamo."
publicado por João Tunes às 22:27
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2 comentários:
De Joo a 13 de Maio de 2005 às 16:49
Obrigado Helena. Subiu para o post como "adenda"ao post.


De Helena a 11 de Maio de 2005 às 17:21
Este post merece lugar de honra numa antologia dos blogues portugueses - pela abertura, pela humildade, pela capacidade de auto-crítica.

Permito-me acrescentar duas notas:
- O sistema nazi estava organizado para "poupar" os soldados alemães: as tarefas a executar pelos alemães estavam divididas em parcelas relativamente "inócuas", enquanto que o trabalho horroroso era feito pelos próprios prisioneiros, em troca de mais alguns dias de vida ou a promessa de salvar um ente querido. O sistema tentava por todos os meios evitar aos soldados situações em que eles tivessem problemas de consciência (por exemplo, o trabalho nos crematórios) - enquanto que o dilema do prisioneiro era terrível; ao mesmo tempo, entendo bem o seu sentimento de horror perante a possibilidade de qualquer um de nós se transformar num sádico prepotente, se estiverem dadas as condições para isso (houve um estudo americano a propósito - falou-se disso em Portugal? Aqui foi bastante falado na altura em que se descobriu o escândalo de Abu Ghraib).
- Dos 20.000 que morreram em Buchenwald às mãos dos russos, entre 1945 e 1950, nem todos seriam "gente indecente e de mãos sujas" - provavelmente muitos deles foram lá parar sem tribunal nem lei, tal como muitos afegãos em Guantanamo.


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