Sexta-feira, 29 de Abril de 2005

UMA ESTÁTUA PARA ENVERGONHAR COIMBRA (e não só)

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Tendo lido a crónica de Fernando Rosas (sim, é claro, também leio os bloquistas…) na sua crónica desta semana no Público, dei-me conta da inauguração em Coimbra, com pompa e circunstância, na coimbrã Praça dos Heróis do Ultramar, de uma estátua de enaltecimento guerreiro aos feitos portugueses na guerra colonial. Segundo Rosas, a estátua mete uma G3 nas unhas de um soldado de bronze, ao mesmo tempo que este segura, na outra mão, um pretinho (decerto salvo da sanha de recrutamento de um turra). A cerimónia foi presidida pelo Presidente da Câmara Municipal de Coimbra – Carlos Encarnação (PSD), também ele um antigo combatente (sei-o por prefácio lido em livro de memórias de um Coronel na reserva). Para não deixar de dar lustro à cerimónia, uma Brigada do Exército prestou honras e a Banda Militar da Região Norte tocou a preceito as marchas do costume. A notícia do evento, vinda no Público, tinha o título solene e apologético de ”Uma estátua contra o esquecimento”. Nem menos.

Esta é uma peça, serôdia mas perigosa, do processo do revisionismo sobre o colonialismo e a guerra colonial. E é de somenos saber-se se o modelo do soldado guerreiro imortalizado em Coimbra foi algum comando do “massacre de Wiriamu”, um fuzo da invasão da Guiné-Conacri na Operação ”Mar Verde” ou um desgraçado fardado à força e metido em beligerâncias defensivas da sua pele e próprias da tropa macaca. Quem sabe até se o escultor se inspirou em alguma fotografia minha perdida e do meu tempo de guerreiro na Guiné. Conta, mais que o modelo, a intenção e a visão histórica pretendida. Ou seja, o prolongamento, passo a passo, da estratégia montada por Paulo Portas, quando Ministro da Defesa, em virar a história colonial de pernas para o ar, dando alento ao orgulho castrense na sua participação numa guerra de conservação de conquista. Querendo fazer esquecer o óbvio – que devemos a liberdade do 25 A exactamente porque aquela foi uma guerra sem honra, contra a história e sem vitória possível. Uma guerra tão absurda, tão absurda, que transformou oficiais colonialistas em oficiais anti-fascistas.

Eles não desarmam. Desarmamos nós, os Outros?
publicado por João Tunes às 17:51
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ATENÇÃO AOS ESCAPARATES

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Em Junho, nas bancas de uma livraria perto de cada um, um livro a não deixar de ler. É o Xicuembo do Carlos Gil, um livro de um blogger que assina por aqui como deu título ao livro, germinado à vista de quem partilhou, na blogosfera, as dores e alegrias de um companheiro com duas mátrias a espicaçarem-lhe o talento e a memória.

Desejo o maior sucesso a este blogo-filho.

(informação e imagem da capa tiradas daqui e dali)
publicado por João Tunes às 16:56
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Quinta-feira, 28 de Abril de 2005

O SEGREDO MAIS BEM GUARDADO DE UMA GERAÇÃO

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É assim que o Nuno Ferreira chama ao 25 de Abril. E a geração dele é a que andava no antigo Ciclo Preparatório em 1974. Uma geração, portanto, que hoje dá cartas, decide, está nos executivos dos partidos, dos jornais e dos conselhos de administração, os que já não são novos e ainda lhes falta naco de vida activa para serem corridos por já serem velhos. Os que cheiraram o PREC com o gosto de imitação dos putos e se apanharam socialmente activos já com as nacionalizações, a reforma agrária e o controlo operário metidos e catalogados no Museu da Saudade. Suponho mesmo que pertence a esta mesma geração uma fatia importante dos bloggers de referência que sabem dosear pós de irreverência com a respeitabilidade do politicamente sensato, mestres na síntese dos contrários e, na sua maioria, liberais com bigode de esquerda. É uma geração importante. Uma geração de poder, do actual poder. Convém entendê-la e estar nas suas graças. Nunca se sabe o dia de amanhã.

Voltando ao companheiro Nuno Ferreira, excelente é (e a não perder, acrescento) a sua crónica onde narra a forma como viveu, catraio estudante e armado aos cucos, em Aveiro, o 25 de Abril e o PREC. Está lá a maestria do bom jornalismo (um jornalismo de crónica e memória, que tanto rareia e tão boas tradições teve em Portugal) e os olhos abertos de ternura e lucidez para tempos em que uma geração guardou um segredo. Segredo que é a chave de por aqui andarmos sem bufos à ilharga. Se conselho me é permitido, não deixem de ir aqui. E depois digam se eu não sou amigo.
publicado por João Tunes às 23:28
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ABAIXO A BOEING!

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Viva a Europa, carago!
publicado por João Tunes às 22:52
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MOLICEIRO DE MALANDRICE NAIF

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O imaginário popular encontra quase sempre um cantinho para se exprimir. Representando a sua cultura, a cultura possível, uma cultura subterrânea que vai do rasca até ao sublime. Por ali passam os medos, quantas vezes aflitos, o marialvismo serôdio, crenças e superstições, o grito de luta ou só de alerta, o desconchavo, o ímpeto poético. Umas vezes, não passa do conformismo e de repetição da catequese dos amos. Noutras, é ou tenta ser, impertinente. Sempre naif.

Até a decoração de um barco moliceiro, para as bandas da ria de Aveiro, pode servir de descarga do imaginário da malandrice que reproduz, afinal, os estereótipos da cultura underground recheada dos ditos que, na taberna, intervala duas rodadas de copinhos e que fora atirada, com os olhos, a uma bunda vistosa que, apressada, subia a Calçada.

Com a devida vénia, não resisto a roubar ao notável Fumaças esta preciosidade.

Já agora, minha querida Guida, esta decoração deve ou não entrar no catálogo do nosso Património "invisível"?

Adenda: A imagem teve direito a destaque aqui. Claro que o mérito inteirinho pertence ao verdadeiro artista - o João Carvalho Fernandes.
publicado por João Tunes às 17:24
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Ó MANUEL, NEGOCIAMOS UM EMPATE?

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Aceito a crítica do Manuel Correia quando me atira “last but not least o nosso amigo e vizinho João Tunes (Água Lisa 2) apaga um post humorado em que se referia ao Cardeal Ratzinger como o Pastor Alemão”.

Aliás, verdade se diga e fique desde já certificado, eu concordarei com tudo o que o MC escrever nos próximos tempos. Devido à alegria do prazer de o voltar a ler nesse tesouro blogosférico que é o Puxa Palavra, um blogue feito por gente vivida, reflectida e de palavra afiada mas sensata (pese embora - ressaibo de lampião - a lagartagem estimada que por lá habita e que já me levou ao impulso ímpio de aqui pendurar o emblema rival).

Mas, no caso, não é só concordar por concordar. Mais que isso, é entender o fundo decantado nas palavras do MC. E o alerta que elas ressoam. Se bem entendi, o efeito de auto-censura da capacidade crítica e desconstrutiva dos republicanos de espírito face ao poder do Vaticano mediatizado e a ameaçar ocupar espaço de poder totalitário por via de assalto teocrático tentado sobre a soberania laica que tanto custou conquistar e se vê não estar consolidada.

Terá alguma razão o MC, mas não lhe dou toda a razão.

A minha antipatia pelo Vaticano e por Ratzinger não sofreu beliscadura. E acho que um Papa, um Papa a sério (e este não tenho dúvida que o será, já o sendo), não merece a indulgência do estado de graça que se costuma dar a governantes pecadores da política e na política. Além do mais, seria uma ofensa ao Espírito Santo, julgando-o capaz da leviandade de inspirar escolha conclávica de um “vira casacas” relativamente ao que foi a sua praxis cardinalícia. E há quantas décadas os portugueses se habituaram à presença tutelar (pelo menos, em negócios) do Espírito Santo? Mais que qualquer outro povo, o português sabe dos atributos larguíssimos do Espírito Santo (para mais, aqui, onde não é mero vértice de um triângulo mas se apresenta organizado em Grupo) e da forma eficaz como nos ilumina através de regimes (fascismo e democracia) e de governos de partidos (PS ou PSD ou PP). Por tudo isto, não acredito, não posso acreditar, nas mensagens que abundam por aí de propagação da esperança que Bento e Ratzinger serão duas e diferentes pessoas. E se Ratzinguer Cardeal foi péssimo, não vejo que o Papa Bento XVI possa ser óptimo ou sequer aceitável. Quando muito, o refúgio de esperança é que não dure demais e a “tchernenko” venha a suceder “gorbatchov” (não de vermelho vermelhão, mas de púrpura).

No entanto, o post que reneguei tinha uma via de facilidade de imagem e de associação que me pareceram, depois e após ajuda do alerta crítico de um companheiro – o Carlos Gil - Xicuembo -, como sendo primário e até ordinário porque amarrava Ratzinguer ao seu passado de adolescente nazi, causticava-o por aí, ou seja, na sua fase de vida menos responsável. E o trocadilho canídeo com o “pastor alemão”, não me pareceu, depois e a frio, de recomendável gosto. Pensando melhor, achei e acho que este Papa (que considero um péssimo Papa e que representa o pior do ressurgimento do pior Vaticano) merece combate de nível mais alto, não lhe baixando a guarda no afã de o deitar abaixo pela rasteira ou pela canelada. Assim, julgo que mais que auto-censura, a minha contrição foi ditada pelo desejo de não subestimar o (melhor, um) adversário. E não estou arrependido.

Quero-te, caro amigo MC, activo e bem activo na blogosfera. Bem penámos já pelo teu demasiado silêncio. Levas as Taças todas, se necessário. Mas, neste teu aparte, perdoe-se-me a sovinice, não levas os três pontos, contenta-te lá com um que é o prémio regulamentar para os casos de empate. E segue o abraço que é oferta da Liga.

Adenda:
O Manuel Correia, barreirense adoptivo como eu (parafraseando outros, os das camisolas às riscas, só eu sei o que esta cumplicidade significa), deu troco ao meu troco. E coloca questões que também a mim (só a nós?) preocupa. E que julgo merecerem debate antes que debater seja heresia de Estado. Daí ter entendido puxar-lhe a “réplica” deixada nos “comentários” para aqui:

”Amigo João Tunes, Aceito o empate. Acho-o justo. Aqui para nós, nem pedia tanto. Tal como outros dos teus amigos, que tanto prezas, não vou ao homem, mas à bola (às ideias). Nada me chateia mais de que o excesso fulanizado que ameaça a serenidade de qualquer boa discussão. Confesso que fiquei um pouco surpreendido. Para além de já não falarmos há tempo, e sem embargo de compreender tim-tim por tim-tim a tua couraçada argumentação, ao velejar na tua "Água Lisa", deparei-me com um fenómeno que supunha (e suponho) raro entre nós. Podemos exceder-nos - gentes de muita emoção e espontaneidade - e dar bronca, eventualmente. Por mim, já perdi o conto às vezes em que tal me aconteceu, na blogosfera e fora dela. A tua «cedência» impressionou-me mais pela visão que os deuses me proporcionaram - a constelação das rábulas católicas em Madrid, Dili e... aqui - do que pelo direito que obviamente tens de manipular o teu blogue como achares melhor. Pensei: ora aqui está um bom pretexto para tomar o pulso ao João Tunes. E tu, caro e diligente amigo, percebeste, como aliás era de esperar. O empate, que venho fraternalmente buscar ao “Água Lisa 2”, favorece-me. No domingo passado espreitei um pouco do Herman SIC. Ele e a Ruef apresentaram uma paródia que chalaceava com o Vaticano e o Papa, designadamente publicitando uma linha de produtos designada «Habemos Papa». A plateia, nada. Gelada. Os actores à rasca. Aplausos só no fim e já a propósito de uma graçola lateral. Fiquei perturbado. Compreendi que voltámos ao tempo em que a perda de sentido de humor vem outra vez de sotainas. Nestas coisas, estou com os católicos que sabem rir-se e compreender que o humorismo só pode beliscar as crenças fracas e os dogmas que a suma hierarquia da Igreja de Roma teima em promover como identidade de todos os crentes. Já pediram perdão a Galileu. Antes do fim do milénio hão-de pedir perdão às mulheres. Se pudesse apostava.”
publicado por João Tunes às 16:20
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OS POETAS NÃO DIZEM ADEUS?

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Raul Rivero, poeta e jornalista é, entre os intelectuais cubanos vivos, um dos mais conhecidos. Infelizmente, não pela sua obra. A sua notoriedade prende-se sobretudo com o seu sofrimento por excesso de sombra de falta de liberdade na Ilha das Caraíbas.

Às seis da tarde de 20 de Março de 2003, a polícia política cubana foi a sua casa para o enfiar na prisão (momento registado na foto que ilustra este post). Dia após dia, mais 74 cubanos (jornalistas, outros opositores) acompanharam Raul Rivero nas masmorras cubanas, ultrapassando em mais de trezentos o número dos prisioneiros por delito de opinião. Julgado sumariamente, acusado de conspirar contra o regime castrista a soldo de uma potência estrangeira, Raul Rivero foi condenado a vinte anos de prisão. Como então Raul Rivero já tinha passado dos sessenta anos de idade, a pena aplicada tinha alta probabilidade de se transformar em prisão perpétua, sabendo-se o que se sabe das péssimas condições prisionais em Cuba, dos maus tratos aplicados aos presos e das deficientes condições de alimentação, higiene e assistência médica. Raul Rivero adoeceu e viu a sua saúde a degradar-se dia após dia. Afinal, talvez não fosse prisão perpétua a pena aplicada mas uma mitigada e lenta pena de morte o que o Comandante Ditador pretendia como sorte para Raul Rivero.

No mundo, há quem não silencie os crimes da ditadura cubana. Nem todos metem mordaça na consciência em nome do apego mítico e sentimental às gestas de Che Guevara, Camilo Cienfuegos e Fidel Castro, ao romantismo das façanhas dos rebeldes barbudos do Granma e da Sierra Maestra, à heroificação de quem quer que bata o pé ao imperialismo norte-americano, exigindo-lhes adicionalmente que mereçam o preito devido para com a libertação não dando depois pontapés nas canelas e na cabeça da liberdade, não substituindo uma opressão por outra opressão. Uma enorme campanha internacional, com destaque para os Repórteres Sem Fronteiras, exigiu a libertação de Raul Rivero e dos seus companheiros encarcerados.

No início deste ano, sobretudo como fruto da campanha internacional e das diligências do governo Zapatero, Raul Rivero e mais alguns saíram da prisão em regime de “suspensão de cumprimento de pena”. Não tendo beneficiado de amnistia, Raul Rivero foi “libertado” precariamente com uma “dívida” de 18 anos de prisão por cumprir. Tal “liberdade” em Cuba era insuportável. Uma linha escrita que fosse, uma entrevista que desse, poderia levá-lo de volta ao cárcere sem necessidade de simulacro de julgamento, "apenas para cumprir os 18 anos em dívida". Uma “liberdade oprimida”, pois.

Há pouco tempo, Raul Rivero exilou-se em Espanha. Tem convites vários para escrever em jornais espanhóis. Afirmou que não quer ser “bandeira” nem concentrar a sua vida na actividade política. Diz não esquecer os seus companheiros ainda encarcerados, nem os demais que, na sua pátria, não conseguem respirar a liberdade. Provavelmente, a sua poesia vai florescer e vai enriquecer-nos com os seus poemas. Talvez agora, Raul Rivero venha a ser, finalmente, mais conhecido e reconhecido por aquilo em que ele é mais talentoso – como poeta e como jornalista. Só por isso, valeu a pena a persistência dos que, politicamente incorrectos face ao maniqueísmo de uma certa forma de se ser de esquerda, lutaram para que Raul Rivero pudesse escrever em liberdade. Pese embora, o limite dessa liberdade, pois o que Raul Rivero melhor conseguiu, no seu direito a ser um homem livre e digno, foi passar de prisioneiro a exilado, arredada que está a possibilidade de ser, nos tempos próximos, um cubano livre em Cuba.

Luís Cino, um amigo e companheiro de Raul Rivero, jornalista também, diz que não se despediram quando ele abandonou Cuba a caminho do exílio espanhol. E di-lo em palavras que dizem muito:

“Não houve despedida. Os poetas não dizem adeus quando partem. A sua poesia fica sempre, acompanhando-nos.”

(quem quiser ler o artigo de Luís Cino sobre Raul Rivero, consulte aqui)

Adenda: Este post teve direito a destaque aqui. Agradecido.
publicado por João Tunes às 12:57
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Quarta-feira, 27 de Abril de 2005

SOBRE CAUSA E EFEITO (2)

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O meu post “Sobre Causa e Efeito (1) “ mereceu dois comentários que me acicataram a desenvolver a tese que ali perfilhei. A eles respondi na “caixa de comentários”. Resolvi trazer esses diálogos para a página da frente, na esperança de que o tema recolha novos contributos.

1 – Mascando Chuinga:

A Isabella que, além de alimentar o seu excelente blogue, é nossa visitante atenta, recordou: “uma frase, de então, do Presidente Samora Machel: "A guerra colonial foi a universidade dos capitães de Abril".
Deixei-lhe esta réplica:

”Quanto à frase citada de Machel, não sei não, embora lhe entenda o sentido político-propagandístico que é de bom efeito. Para os "capitães de Abril", a guerra colonial, mais que "universidade" (considerando que universidade é sítio próprio para evitar a estupidez, quando vemos tanto académico estúpido...), não terá sido antes o acumular acima do limite do medo da morgue e do pânico dos perdedores? (é que, convém não esquecer, os militares antifascistas e anti-colonialistas precisaram, modo geral, da terceira comissão para serem antifascistas e anti-colonialistas, antes disso até vestiram o patriotismo da missão). E, curiosamente, mas dando que pensar, a consciência mais desesperada (e mais consequente e impaciente, pois então) entre os militares profissionais do exército colonial, depois MFA, eram (por acaso?) os que estavam na Guiné e em Moçambique (onde estavam as castanhas mais quentes). E menos, muito menos, em Angola, em Cabo Verde, em Timor e em Macau. Para não falar nos sítios onde não houve guerra, porque é que Angola foi "menos universidade" que a Guiné e Moçambique? E, nestas "duas universidades" porque é que a Guiné deu mais "mestrados" e "doutoramentos"?

2 – Estudando pela Sebenta:

A th, outra animadora dos comentários neste blogue e dona do seu excelente poder de escrita, “provocou”: “Vocês não andarão à procura da resposta para a velha questão: "quem apareceu primeiro...a galinha ou o ovo?". Certo, certo, uns dirão que foi a galinha, outros o ovo...quanto a mim em algum lugar apareceu um, noutro lugar apareceu o outro...mas que deu uma bela "refeição"...lá isso deu, com algumas "indigestões pelo meio, como era de esperar, que o fim de uma boa refeição nem sempre é bem conseguido!",
ao que argumentei:

”Quanto ao que diz da "refeição", cara th, concordo inteiramente. Quanto à questão de fundo, tenho opinião (sujeita a aferição) diferente da sua. Não me parece nada a questão da "galinha" e do "ovo". Isto é, se a guerra colonial não fosse travada pelos movimentos de libertação da forma como foi (na Guiné e em Moçambique, com sucesso estratégico, de mobilização e com resultados militares palpáveis), de certeza que o fascismo duraria bastante mais e as forças armadas não teriam um papel central e talvez até alinhassem ao lado do regime. Era limitada a capacidade da resistência antifascista para fazer face ao fascismo luso (com poderosos aliados internacionais, no contexto da guerra fria). Até internamente, a mobilização antifascista conseguida (mas insuficiente para derrubar o regime) deveu muito ao medo e recusa de sectores da juventude perante a guerra colonial. E como Salazar morreu quando a morte o visitou depois do acidente da cadeira, talvez Marcelo tivesse morrido doente e na cama ou passado a pasta a um "Adolfo Suarez à portuguesa" . Como Franco em Espanha e que encontrou ainda formas (através do Rei, e não só) de o franquismo passar tranquilo através da "transição", evitando roturas revolucionárias. Aqui, a rotura não só foi revolucionária e antecipada à capacidade popular de libertar o País do fascismo, porque as FA entraram em força no processo de rotura e isso porque os oficiais não suportavam mais a guerra colonial onde ela fazia mais mossa. Pensando nisto, não posso deixar de concluir que o factor determinante para o 25A foi a guerra colonial, pelo impacto da luta anti-colonial onde ela foi mais eficaz (na altura: Guiné e Moçambique). Entretanto, julgo que o anti-fascismo "metropolitano" (embora tenha ajudado o movimento anti-colonial), "civil" se perdoar a força de expressão, não teve e não tinha capacidade para impor uma solução ao problema colonial. Assim, julgo que é justo reconhecer que devemos aos movimentos de libertação anti-colonial (designadamente ao PAIGC e à Frelimo) terem desgastado de tal forma as Forças Armadas que as empurraram para o antifascismo e para a Revolução. O seu a seu dono.”

A procissão vai no adro. Recolhe já à capela das inutilidades redundantes ou tem ruas para andar? Quem quiser, que se chegue. Escuto.
publicado por João Tunes às 22:29
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ALEGRIA EM TEMPO DE REQUIEM?

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O meu amigo João Carvalho Fernandes anda contente que nem uma andorinha a fazer a primavera. O motivo desta alegria vibrante (e eu gosto de ver os meus amigos felizes, mesmo não sendo sócio dos seus projectos partidários) prende-se com a forma como as coisas andam lá pelo CDS/PP, nomeadamente por via do seu último Congresso. Diz ele:

”acho que este Congresso [ do CDS/PP] foi excelente para o meu partido, Nova Democracia, abrindo-lhe maior espaço de implementação. É muito claro que o PP morreu!”

Entre PP e PND, não escolho. Porque moro do outro lado do rio. Mas, a confirmar-se a previsão fulminante do JCF, espero que, já nas próximas eleições, o PND consiga finalmente ultrapassar o PCTP/MRPP. Não é por nada, mas a sigla das andorinhas, apesar de lhe faltar ressonância histórica, é mais fácil de pronunciar.
publicado por João Tunes às 18:20
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SOBRE CAUSA E EFEITO (1)

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Alguma glorificação do 25 de Abril não evita um certo paternalismo relativamente aos países africanos que, em 1974, eram colónias portuguesas. Diz-se que foi a queda do fascismo português que permitiu (ou provocou) as independências em África pelo chamado efeito dominó. Ou seja, por portas travessas, o eurocentrismo funciona em algumas cabeças anti-fascistas, tomando-se a conquista da liberdade como património branco.

Obviamente que a queda do fascismo acelerou o processo independentista africano, sobretudo porque incapacitou a potência colonial, desde logo em poder e motivação militares e sustentação na retaguarda metropolitana, para prolongar mais as guerras coloniais. Como não podia deixar de ser, dado que o colonialismo, desde o início da década de sessenta, se fundira no regime de forma tal que fascismo e colonialismo já não podiam viver um sem o outro. Caído um, cairia o outro, enleados que estavam num beijo de vida ou de morte.

Mas, se nos dois fenómenos, o verso e o reverso da ditadura, se quiser encontrar causa e efeito, então a verdade histórica manda que se diga que foi a luta anticolonial, mais a impossibilidade de vencer as guerras coloniais, que possibilitaram, ou determinaram, a queda do fascismo. Foi em 1974, poderia ter sido antes ou depois. Mas o projecto de resolver o problema colonial pelas armas levou a que o desenlace se desse mais tarde ou mais cedo. E, por isso mesmo, é que foram as armas de um exército transformado em exército colonial, comandadas por oficiais incapacitados de continuarem a fazer uma guerra sem vitória possível, que os levou a tomarem o Quartel do Carmo. Se o “25 A” tivesse sido mais cedo, ter-se-iam poupado uns milhares de mortos (portugueses e africanos). Se fosse em data mais tardia, mais mortes inúteis seriam acumuladas no rol da aventura africana.

Guiné estava perdida há muito. Angola demoraria ainda (e isso, fundamentalmente, pelas dificuldades endógenas aos movimentos de libertação angolanos) mas lá iria (e com um preço elevadíssimo em destruição e morte). Quanto a Moçambique, prefiro que fale quem lá nasceu e viveu: “Há quem vincule a mesma [a data de 25 de Abril] à independência das agora ex-colónias portuguesas, como se esta Revolução dos Cravos fosse a responsável pela diminuição do território português. Falo agora de Moçambique especificamente. Alguém ainda duvida que mesmo que não tivesse havido o 25 de Abril em 1974, que Moçambique não haveria ainda assim atingido a sua independência política? Alguém duvida que a Frelimo vinha cada vez mais tomando espaços e vitórias estratégicas em relação à tropa e ao estado português? Só por birra é que se pode continuar vinculando os dois factos. O que se pode vincular é que com o 25 de Abril em 1974 evitou-se alguns tiros entre moçambicanos e portugueses por uma guerra onde politicamente e nas mesas dos estrategistas de guerra dos dois lados já se sabia quem sairia vitorioso.”.

Por justiça, os antifascistas não podem esquecer que ao anticolonialismo devemos todos o fim do fascismo. O mérito não deve ser nem arbitrário nem apropriado.
publicado por João Tunes às 13:14
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