Segunda-feira, 9 de Maio de 2005

NOS SESSENTA ANOS DA RENDIÇÃO DO REICH (2)

Yalta.jpg

Nas celebrações, os celebrantes excedem-se, exagerando, puxando a brasa à sua sardinha. O costume. George W. Bush exagerou em Riga. O mesmo costume. Mas, desta vez, além do exagero contumaz, o Presidente dos EUA, numa operação de revisionismo histórico ao serviço da sua propaganda, foi injusto para com outro Presidente dos EUA (por sinal, um dos grandes Presidentes da história da América). Não fica bem que um Presidente pequeno trate assim um Grande Presidente do seu País (igual, se de outro se tratasse). Entretanto, o Raimundo Narciso colocou os pontos nos ii e no mesmo ponto a que eu, telegraficamente, quis chegar no meu post anterior e com o mesmo título deste.

No entanto, se em vez de “mal da história”, George W. Bush tivesse falado dos absurdos da guerra, eu cá estaria para o aplaudir.

Uma guerra é sempre um absurdo. E se começa num absurdo, toda a destruição e morte o sendo, a paz que se lhe segue, a paz que se consegue para parar a guerra, só pode sê-lo também. Porque a via da violência nunca é caminho para a clarividência ou para a inteligência ou sequer para qualquer solução justa. A guerra é o caminho privilegiado do ódio e da força. Começa com quem se sente mais forte para usar a força, acaba pela imposição da força do vencedor. Sempre o reino da força, o absurdo do uso da força.

A II Guerra Mundial é, além do mais, o absurdo de a democracia não querer ser suficientemente forte para se defender, preferindo a gordura burguesa e egoísta, passando a mão pelo pêlo da tirania para a sossegar. Quando o podia e devia fazer, face à tirania nazi, a democracia não lhe fez stop. Desde logo, em 1936 e em Espanha. Depois em Munique, o grande sinal de capitulação e no calculismo de que a tirania nazi se atiraria à carne da outra tirania, afinal a mais detestada. Na ilusão gorda e burguesa de que as tiranias (a nazi e a soviética) se matariam uma à outra e restaria a prosperidade anafada das burguesias e sem necessidade de acenderem um pau de fósforo. Quando da Polónia, já era demasiado tarde, as tiranias simétricas tinham-se aliado para o festim e o saque, contra a democracia e a soberania. E foi o que se viu. O que não estava previsto - nazis e soviéticos de braço dado no mesmo bacanal a meter a pata na liberdade, na dignidade e na soberania dos povos europeus. Sorte das democracias que, mais tarde, as tiranias se virassem uma contra a outra. E, então, não podendo já ser de outra forma, foi precisa a aliança com a tirania soviética para derrotar o Reich.

A vitória militar contra o Reich deve-se, sobretudo, ao Exército Vermelho. E a paz só seria possível, como sempre, pela força dos vencedores. Como negar, então, a imposição dos vencedores, o festim dos vencedores? Como evitar Ialta? Se a tirania nazi só foi esmagada através da força da tirania soviética, como retirar a Estaline a coroa de glória e impedi-lo de se prolongar, prolongando a sua tirania? Como evitar o paradoxo, o grande paradoxo que descompôs para tantas décadas a capacidade de grande parte dos europeus em distinguirem democracia de tirania, erguendo lado a lado as bandeiras dos vencedores em que se incluía, não podendo deixar de se incluir, por méritos de guerra que não de liberdade, mas confundindo paz com liberdade, a bandeira de Estaline?

Se Ialta não podia ter sido evitada quando ocorreu, podiam e deviam tê-lo sido, antes, Espanha e Munique. Num e noutro momento, seria: Democracia contra Tirania. Sem as cobardias de Espanha e de Munique, não haveria Ialta, Estaline não se sentaria, para a fotografia dos vencedores, ao lado de Churchil e de Roosevelt. Estaline ficou no retrato, merecendo-o então, mais que os outros até, porque sem a URSS não havia derrota do Reich. Foi a cobardia das democracias que deu grandeza à tirania de Estaline. Era isso que George W. Bush, se fosse inteligente, culto e justo, devia ter lamentado em Riga. Não o fez. Como costume. As democracias são o melhor que há mas quantas vezes teimam em ser burras.
publicado por João Tunes às 12:19
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15 comentários:
De RN a 12 de Maio de 2005 às 00:41
Da última vez já tinha lido o post e os muitos comentários. Mas tu nem dás tempo a digerir já escreveste mais umas centenas (ou milhares ?)de linhas. Protesto. Assim não dá para acompanhar. Vou andar mais um bocado por aí acima mas desta vezada não conseguirei chegar ao topo.


De Werewolf a 11 de Maio de 2005 às 23:39
Ora vivam meus caros João e IO.

Então começam por discutir a II GM, a democracia e a tirania, Munique e Espanha, metem Ialta pelo meio, derivam para o valente soldado Shveik e acaban a contar os acidentes de trabalho na península Ibérica.

Não há dúvida de que a conversa é como comer tremoços, então se acompanhados de uns finos, perdão, imperiais, é que nunca mais acaba, ainda por cima a contemplar o Tejo com a cidade branca por trás..

Desculpem esta interrupção, eu vou vontinuar sentado numa esplanada da Ribeira a olhar para o Douro sonolento e barrento, com tainhas a saltar junto aos esgotos e ratazanas a saltar nas rocha (porra estou quase a perder o apetite, esqueçam a parte das tainhas e das ratazana, voltemos à esplanada), a soborear uns finitos acompanhados de uns pratinhos de tremoços carnudos e o relógio parado.

Continuem que eu de vez em quando venho cá espreitar a vossa conversa e meter a colherada.

Beijos e abraços para os dois, conforme os gostos de cada um, que eu hoje estou por tudo e tenho pela frente uma longa noite de trabalho.


De IO a 9 de Maio de 2005 às 17:48
lol, e que está sol, já tinhas visto? - eu, quase, quase pronta a ir apreciá-lo, Tejo ao fundo. Beijo!, IO.


De Joo a 9 de Maio de 2005 às 17:40
Por culpa de Ialta e de Munique? Desisto. Melhor, passo.


De IO a 9 de Maio de 2005 às 17:21
E olha que é uma vergonha o que por cá se passa: 244.936 acidentes de trabalho, no total, 365 mortais, um por dia, em média...


De Joo a 9 de Maio de 2005 às 17:04
E eu a estimar cada vez mais o meu caro Soldado Scheveik. Antes ele, mil vezes ele. Porque, afinal, era um bravo. à sua maneira,mas um bravo. E prometo-me não o voltar a emprestar... Desculpa, Scheveik. Assina: "uma vítima de acidente de trabalho na península ibérica".


De IO a 9 de Maio de 2005 às 16:56
Um dia que eu não esteja a trabalhar, respondo-te... para já, estou a contar vítimas de acidentes de trabalho na península ibérica, oh sortudo!! - beijo divertido, IO.


De Joo a 9 de Maio de 2005 às 16:38
Isso dos "mesmos" (aplicado aos "ódios" anti-SB) já não tem a dignidade Scheveik. Assim, retiro o último cognome atribuído.


De Joo a 9 de Maio de 2005 às 16:30
Dás corda e piras-te nos argumentos, deixando o conversador a falar sózinho. Isto não é polémica, são pilhas "Duracell". Tudo bem, brava soldada Scheivk.


De IO a 9 de Maio de 2005 às 16:27
Quanto à SB são dois diabos juntos, mas hoje não é dia de discutir isso...mas que a treta e o ódio que os mesmos lhe têm são velhos, sei-o de gingeira!! Abraço, IO.


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