Sexta-feira, 6 de Maio de 2005

SINDICALISMO, O MAL E A CARAMUNHA

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Uma das mensagens dúplices que circulam é a da autonomia das organizações sindicais relativamente aos Partidos. Na maioria dos casos, finge-se que assim é, sabendo todos que esta não passa de uma “mentira de representação”. Nem a UGT é independente do PS e do PSD, como independente não é a CGTP do PCP e do BE. A verdade é que, no fundo, não passam de frentes de intervenção laboral, social e política dos Partidos em coligações muitas vezes desfasadas do plano das alianças político-partidárias. Não negando que, na dinâmica de intervenção sindical, existe algum grau de liberdade na afirmação e na intervenção. E, talvez por isso mesmo, é que quer uma quer outra das forças sindicais conseguem expressões que transbordam a filiação partidária. Não deixando de ter presente que é por isso mesmo, ou seja pela capacidade de a intervenção sindical ultrapassar em representação e em influência os Partidos condutores, que a “mentira sobre a autonomia sindical” é alimentada e tolerada.

Uma mentira subsidiária na ocultação do controlo partidário sobre os Sindicatos é dizer-se uma “meia-verdade” – por exemplo, que os militantes do PCP são maioria na CGTP porque são, por natureza de classe e de militância, os mais emprenhados, activos e dinâmicos na defesa dos interesses dos trabalhadores. O que, sendo verdade, não pode obscurecer os dados da face oculta – os militantes do PCP actuam organizadamente, cumprem as orientações do PCP, é o PCP que decide a política de quadros e de alianças na CGTP, a promiscuidade entre as organizações do PCP e as estruturas da CGTP é de nível orgânico, as lutas são enquadradas numa dinâmica para confluírem com os objectivos políticos do PCP, o PCP garante a perpetuação do domínio e controlo da CGTP como uma das suas principais preocupações partidárias. Resumindo, a CGTP se não é o PCP, é uma Frente do PCP.

O Bloco de Esquerda vale o que vale no mundo sindical e na CGTP. Pouco, quase nada. Ou seja, vai alimentando uns restos da influência adquirida, em tempos, pela UDP e pelo PSR, num ou outro Sindicato, metendo um ou outro quadro nos Professores e na Função Pública. Como antes com a UDP e o PSR (mais a Base-FUT e um lequezinho de algumas raras personalidades “independentes” pescados no PS ou no sindicalismo cristão). O PCP precisa do BE na CGTP para que o seu domínio seja disfarçado. O BE precisa do PCP e da CGTP para ter uma presença institucional e orgânica no campo sindical, para mais com direito a “lugares representativos” bem acima da sua real influência. Mal ou bem comparado, lembra o que é a CDU como "coligação" PCP-PEV, em que os malmequeres fantasmas do PEV só existem como disfarce de um emblema (a foice e o martelo) que afugentam eleitorado, enganando-o para ele não fugir.

Nos últimos arranjos, que já não foram pacíficos, quando do Congresso da CGTP, ainda as pizzas não tinham esturricado politicamente entre o PCP e o BE. E a coisa remendou-se. O BE pressionou e conseguiu uns tantos lugares supra-numerários, o PCP cedeu no farelo para conservar os sacos da farinha. Com as últimas eleições e a tendência de PCP e BE pescarem no mesmo eleitorado, a subida espectacular (que se prevê não ficar por aqui) do BE, as coisas só podiam azedar nas bandas da CGTP (idem nas autárquicas). A um chauvinismo de grande potência opõe-se o chauvinismo da potência emergente e vice-versa. Só podia.

A encenação da representação da CGTP e da UGT como forças sindicais supra-partidárias tem os seus expoentes de ritual nas comemorações do 1º de Maio. Que, na encenação, é o embuste maior. Mas, em teatro, tem que se escolher entre se ser actor, espectador ou crítico. Não há palco que aguente mistura destes papéis. O Bloco alimenta a “mentira sindical” da CGTP porque lhe interessa. E não se pode andar a gritar “agarra que é ladrão” e depois meter a mão no bolso do polícia para lhe roubar a carteira. Se o Bloco está, como está, na CGTP, deve ser leal com ela, alimentando-lhe inclusive as “mentiras”, levando a encenação da peça até ao fim. E ou as comemorações do 1º de Maio se fazem, representando e atraindo, com o disfarce da CGTP e os Partidos de influência se apagam, ou então desmascara-se o que houver a desmascarar e lava-se a loiça. Pretender que, num desfile do 1º de Maio, uma parte apareça com o guarda-sol da CGTP e outra, dela fazendo parte, se autonomize, desfralde as suas bandeiras, contabilize simpatias e autonomias nas palavras de ordem, só pode ter um nome – querer somar uma mentira (a da autonomia do BE, quando o BE está aliado ao PCP na CGTP) a uma aldrabice (a CGTP autónoma do PCP e do BE). Pelo que sei, foi isso que deu lugar aos “incidentes” na última comemoração do 1º de Maio no Porto. Como se pode aferir através do relato indignado de um confesso militante do Bloco que desabafou aqui.
publicado por João Tunes às 17:04
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