Quinta-feira, 5 de Maio de 2005

NA HORA DO “TRIPLO” DE RAIVA DORIDA

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Falo de fala sentida, mistura de dor, raiva e orgulho na revolta.

Lidei-te puto, orgulhoso, terno e perfeccionista. Com uma precoce lealdade na infinita coragem feita vontade e capaz de quase todas as renúncias (e se digo quase, assinalando excepção, é porque meteste sempre os afectos na redoma do intocável). Querias, em tudo, ser o Maior. Ficou famosa a tua noite de birra catraia quando sentiste o mundo a desabar porque tinhas tirado 17 a Matemática. O percalço passou, voltou a bitola 18/20 que nunca te largou mais. Hoje terias, pois terias, o curso de Medicina que era teu alvo. Sem espinhas, na bitola de sempre. Mas o vício entrou-te através da ocupação dos tempos livres no Maria Pia. E, depois, esse tipo chamado Carlos Lisboa nunca devia ter saído das margens do Índico. Ficasse por Moçambique em vez de vir até aqui, até nós, ao clube dos corações quentes e maior que o mundo, encher-nos de talento e de génio, suando o nosso vermelho vermelhão, aumentando-lhe o pecúlio de glórias, mostrando a todos que o basket é coisa para mágicos. Mas esse tal Lisboa tem grandes culpas de em vez de um médico termos um desportista. Lembro-me da tua entrevista ao Record, então com os teus imberbes 17 (já chamado à Selecção, com Portugal escrito na frente da camisola cava), dizeres mais ou menos isto: ”O meu ídolo é o Carlos Lisboa, sei que não vou ser como ele mas vou tentar, pelo menos quero jogar com ele”. Sempre a mesma bitola, o olhar para o máximo, a atracção perigosa por ser Maior. Essa entrevista, viva mas amarelecida, por ela vou passando (porque exposta no corredor da casa dos teus Avós) quando me consagro na minha ternura de estimação por esses octogenários de almas maiores que a serra do Açor. Sempre que olho o recorte amarelo de jornal antigo, rio-me do naif da exposição do primeiro grande orgulho de quem te sofre as dores e se alegra com as tuas alegrias, fruindo eu o espectáculo único de sentir dois velhos que tudo deram aos outros e a quererem-te como ninguém consegue querer-te. Depois, nunca mais abandonaste esse tique de braço em gancho dinâmico como se um cesto, qualquer cesto, te estivesse ali à mão de semear, de encestar. E o teu mundo ficou quase só reduzido aos afectos, ao basket e a esse desejo supremo de tudo dares nas tuas escolhas, procurando o máximo, tudo. Partilhámos o teu orgulho de vestires a preceito, águia real no peito, jogando ao lado do Carlos Lisboa e ele adoptar-te como puto companheiro e discípulo de estimação e de eleição. Mais o teu gozo gaiato de também ergueres uma Taça entregue ao Capitão Lisboa antes que Ela enfeitasse a sala de troféus do maior clube do mundo. Fizeste a tua carreira, com essa imensa mistura de talento de excepção (o record do maior número de pontos marcados individualmente num jogo da Liga portuguesa, ainda te pertence). O mundo desportivo daqui acanhou-se para o teu talento que merecia, apetecia, mais que este espaço doméstico. Foste-te à conquista dos espaços europeus e nas Ligas mais competitivas, mantendo a dedicação sem limites nos brilhos máximos com as cores de Portugal na camisola. Sempre dizendo, nessa sinceridade de quem não consegue dizer diferente do que sente, correndo os riscos de todos os inconvenientes que, quando voltasses a jogar num clube de Portugal, só o irias fazer, só admitias fazê-lo, com as cores e o emblema do teu coração e dos teus – o eterno, o glorioso, o máximo, o das glórias do Maior. Provavelmente, com Carlos Lisboa, o Maior entre os Maiores, sempre a desafiar-te. Primeiro em Milão, depois à beira de Nápoles. A seguir, em Espanha, onde aprenderam a dizer El Português Sérgio e atingiste rankings de excepção e de Nº 1 em várias jornadas, na mais competitiva, cara e entusiástica entre as disputas basquetebolísticas europeias. Depois de Luís Figo, ficaste com a honra de seres o desportista português com maior sucesso europeu. Não te tiram isso. Podem, e devem, outros novos ultrapassarem-te daqui a nada, um dia destes, mas agora, por enquanto, é assim. E Figo é futebol, queria vê-lo frente a um cesto de basket e a fazer viajar o desenho mágico, que ninguém consegue imitar, nem tu imitaste de outro, nem sequer do Lisboa (e que lindos e únicos eram os desenhos da bola saída das mãos do imortal Lisboa!), dos teus triplos que nos levantavam e levantam o corpo a desejar o céu como objectivo de prazer num celebrar indecente de orgasmo no espaço público de um pavilhão, numa mistura ímpia de carnal e celestial. Aconteça o que acontecer, já foste Maior, venha a inveja ou o despeito de outras cores que o queira negar ou diminuir, mas isso vale tanto como a brisa que pode refrescar sem fazer cair a moldura com a notícia do velho Record que ilustra o corredor da casa dos teus Avós e com quem continuas a trocar ternuras com pergaminhos de primeiro neto. És e serás sempre um Campeão. Mais que tudo, por esse coração imenso que te habita e nos povoa. Mesmo sabendo, sobretudo sabendo, que a sorte, tantas vezes, tantas vezes, vezes demais, nem sempre é amiga de campeões. Como agora, outra vez, quando lemos, com raiva e dor, esta notícia:

“Sérgio Ramos, basquetebolista português que integra a equipa espanhola do Lérida, vai estar parado seis meses, depois de ter contraído, no decurso de um treino, nova lesão no joelho direito. O resultado da artroscopia a que foi submetido indica uma rotura parcial do ligamento cruzado. Recorde-se que o extremo do Lérida havia sofrido uma primeira lesão no mesmo joelho em Março do ano transacto, contratempo que o obrigou a uma inactividade de oito meses, reaparecendo esta temporada.”

As lágrimas de raiva, dor e orgulho andam por aí. E por aqui. Habitam as casas dos que te querem e te admiram, tornando tristes o nosso estar e os nossos falares. Depois, pensamos nós, pensarás tu, tarda nada, aparece aí a tua segunda pimpolha, mais uma menina a acrescentar barulho bom nas nossas celebrações de tribo decente, solidária e aberta ao mundo. Ao mundo, este mundo, onde há uns tantos, honrados vencidos pela má sorte e alguns campeões. Tu serás sempre um campeão entre os campeões. Acredito que vais vencer o grande jogo dos talentos contra a equipa maricona das sortes e dos azares. Aquece a mão e lança, Sérgio. Força, Sérgio! Vai sair triplo. Acredita. Nós acreditamos.
publicado por João Tunes às 17:17
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