Quarta-feira, 4 de Maio de 2005

SOBRE NINO VIEIRA

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O historiador e académico guineense Leopoldo Amado emitiu uma extensa apreciação sobre os últimos acontecimentos na Guiné-Bissau e a controversa figura de Nino Vieira. Com amizade e consideração, facultou-me acesso ao seu interessantíssimo e sábio texto, o que muito me sensibilizou. Achei-o de partilha interessante para ajudar a moderar a tendência comum de elevar figuras públicas ora aos píncaros ou então arrastá-las pelo chão. Neste momento, por boas ou más razões, Nino Vieira voltou à ribalta. Com a devida autorização do Autor, aqui fica um excerto desse texto e que julgo do maior interesse para olharmos Nino Vieira através de um ângulo mais distanciado e mais completo, mais justo portanto. E não é para isso que existem os historiadores?

“Todos os problemas de instabilidade que a Guiné-Bissau enfrenta ou enfrentou no passado, decorrem paradoxalmente das inúmeras e emaranhadas contradições, de vária índole, acumuladas durante a luta de libertação, a qual, como se sabe, foi dos mais brilhantes movimentos de luta pela emancipação em África. Igualmente, no período subsequente à independência nacional, estas contradições, associadas às anteriores, continuaram a lavrar-se, a ponto de se transformarem no prolongamento natural das questões mal digeridas durante a luta de libertação.
A essas e outras contradições, somaram-se, após a independência, outras tantas que surgiam sempre em jeito de novos problemas, mas possuindo quase todos eles marcas profundas de um passado mal digerido ou simplesmente ignorados e mesmo recalcados, tal a força da ideologia da libertação, que exigia que tudo se aceitasse, em nome da unidade e do seu objectivo fulcral.
Às novas contradições passaram a justapor às anteriores, tudo concorrendo para que os gestores da coisa pública e do poder se tivessem perdido num mar de dúvidas, e se tenham mergulhado, eles próprios, num ambiente de generalizada desconfiança, onde tornou-se evidente a sua dificuldade em gerir situações adversas comportando igualmente sobreposições altamente inconvenientes. Numa só expressão, dir-se-ia que não estiveram à altura das suas responsabilidades, na medida em que optaram pela solução mais fácil, ou seja, proceder a afastamentos “in limine” dos seus opositores, isto é, quando não optaram simplesmente por manda-los fuzilar, sumariamente.
É evidente que a História recente da Guiné-Bissau tem os seus protagonistas e esses protagonistas têm um nome. Foram tantos, perfilando aí Amílcar, Aristides, Chico Té, Nino Vieira, Osvaldo Vieira, outros tantos, e até ilustres anónimos. Todos e cada um, durante a vigência da sua liderança, num momento espácio-temporal determinado, confeririam um cunho próprio às s suas acções. Dito de outra forma, geriram o processo com a utensilagem possível, segundo uma mundivisão própria, agindo e interagindo à sua maneira com vários outros factores objectivos e subjectivos que constituíam as matizes do processo.
Nino Vieira, protagonizou, grosso modo, uma das páginas mais brilhantes da História Militar do processo do nascimento da Guiné-Bissau como país, dando o exemplo para toda a juventude de como um simples e humilde cidadão pode, em plena luta de libertação, tornar-se num General “avant la lettre”, isto é, antes de o ter sido na realidade. Catapultado ao poder a 14 de Novembro de 1980, mais por força das contradições internas do PAIGC do que por vontade própria ou pelas razões do “reajustamento”, era reconhecido ao Nino Vieira, por este simples facto, toda a legitimidade que um líder poderia ambicionar. Ao carisma de grande guerrilheiro, somaram-se atributos outros, também aprendidos na luta - e faço aqui questão de frisar um -, porque virtuoso, mormente, a destreza que revelava possuir na difícil arte política de equilibrar e até sanar os vários focos de conflitos entre os guineenses, os quais, aliás, não eram senão o resultado da justaposição de velhas contradições e a manifestação ulterior das mesmas, através de um processo de prolongamento natural, onde é quase sempre possível descortinar ligações entre velhas e novas quezílias.
Esta foi, quiçá, a principal e a mais positiva referência de Nino Vieira enquanto estadista hábil, na medida em que, curiosamente, se exceptuarmos momentos em que argumentos étnicos foi por ele utilizado como arma de arremesso político, Nino até foi o Presidente guineense que mais estimulou e pôs em prática a ideia da unidade nacional, não olhando a expedientes repugnáveis como a pobreza, a ruralidade ou a pertença étnica ou ainda a pigmentação da pele para estabelecer critérios anatemáticos. Ilustram essa sua postura, por exemplo, a sua longa vivência com os balantas, a qual tornou-o, apesar de algumas nódoas negras (como por exemplo o fuzilamento de Paulo Correia e Viriato Pã), no estadista guineense que melhor soube equacionar e até gerir equilibradamente a avalanche de reivindicações várias, sobressaindo, entre estes, a mais difícil de gerir (a dos balantas), porque, entre outras explicações plausíveis, foram e são altamente ciosos da importância e do peso da sua participação na luta de libertação nacional.
Destacar-se-ia, eventualmente, outros atributos positivos de Nino Vieira como o sentido de oportunidade com que acautela o carisma e a legitimidade conquistadas, aspectos que inquestionavelmente reforçam, por seu intermédio, a confiança do/no Estado e suas instituições, não obstante ser-lhe também conhecido as imensas hesitações em que se deixa envolver, sobretudo quando urge tomar decisões importantes ou quando sobre essas decisões pesam acrescidas responsabilidades, o que frequentemente o torna altamente vulnerável e, por isso, muito influenciável relativamente a acção dos “lobbies” ou de fortes grupos de pressão, a quem acaba, em última instância, aliás, por “delegar” a competência de decisão, acentuando-lhe este factor, aqui e acolá, durante o seu consulado, as gritantes fraquezas que revelou em matéria de gestão da coisa pública.
Ora, foi justamente nesta matéria, na gestão da coisa pública, que se descortina um outro gritante défice de Nino Vieira: cioso da sua legitimidade e do seu carisma, fez tudo para os preservar. Mas, a um tempo, longo demais, revelou-se insensível e até incapaz de dar vazão as aspirações de modernização e desenvolvimento que, a um certo nível, até estiveram ao seu alcance, considerando as intermitências positivas que, num ou noutro contexto, a conjuntura internacional permitiam. Não que Nino não acreditasse na modernização ou no desenvolvimento, mas porque para ele era dado adquirido de que o segredo do sucesso apenas repousava no aumento da produção e produtividade agrícolas (foi, sintomática e curiosamente o Presidente que mais apelou nesse sentido) e que tudo e o resto, em matéria de desenvolvimento, vinha aos poucos. Faltou-lhe, nesta matéria, um pouco do entusiástico e até excessivo frenesim do seu antecessor, pelo que acabou, ele próprio, por ser engolido na teia de corrupção e laxismo engendrados com a sua cumplicidade activa e/ou silenciosa, conforme os casos, permitindo uma aberrante promiscuidade, praticada sobretudo pelos seus colaboradores mais próximos, estes últimos com fortes ligações aos sectores especulativos e parasitários da economia nacional, não lhe abrindo este opção senão perspectivas de um desenvolvimento pretensamente baseado na iniciativa privada, quando na realidade, toda a máquina administrativa e económica se assentava numa mescla onde era difícil o discernimento entre a pertença do Estado e dos indivíduos bajuladores e “idolatradores” do seu Chefe, aliás, como já se referiu, teia essa em que o próprio Nino Vieira se enterrou até à garganta e, com ele, as legítimas aspirações do país e das populações.”


(na imagem, Nino Vieira e Amilcar Cabral durante a luta de libertação da Guiné-Bissau)
publicado por João Tunes às 18:16
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2 comentários:
De Joo a 6 de Maio de 2005 às 10:44
Ah se os bons desejos governassem o mundo... não é cara Brígida?


De Brigida a 5 de Maio de 2005 às 00:38
Mas é uma verdadeira contradição. Do Nino, do Kumba e de todos os guineenses. E quem conhece a Guiné e tem afeição por aquele povo - e eu conheço e tenho - gostaria que encontrassem um caminho alternativo e menos contraditório!!!


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