Terça-feira, 31 de Maio de 2005

QUE FORÇA É ESSA?

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É-me um mistério da condição humana o mecanismo de nos defendermos não vendo aquilo que não queremos ver. Falo por mim que fiz militância de cegueira anos a fio (outras militâncias também e de olhos bem abertos, abone-se). E se falo de mistério a propósito de uma coisa tão óbvia e que tanto salta à vista no conhecimento do processo de cegueira construído, isso, mais que certo, não será mais que um mecanismo justificativo, agora em efeito de réplica, com alguma indecência na missão de nos justificarmos para não nos olharmos ao espelho com a sensação de que não passamos de um gajo fatela que andou por aí a enfiar barretes. E a menos que se seja saloio, campino ou folclórico dos fandangos, ninguém gosta de andar a passear um barrete enfiado na cabeça.

Pois temos aí obra parida (*) para ajudar os renitentes. Não só, mas também. Pelo menos, os menos renitentes dos mais renitentes. Afinal, obra aberta até aos cegos. Julgo até que ela só possa escapar aos zarolhos ideológicos – os mais cegos entre os cegos da toleima porque vendo de um olho só, eles imaginam que vêm mais que todos e em nosso nome.

Batido em várias camadas do percurso do desencanto, o livro não deixou de me defrontar com várias perplexidades e só dessas hoje partilho espantos:

- Que força foi essa que levou uma mulher a que, por paixão, se casou com 16 anos com um revolucionário de 42 de idade, viveu um pouco de amor (mas suficiente para, desse amor, ter um filho) e depois tivesse suportado toda a vida no preço errado da sua escolha certa (dando como certa, como dou, a escolha de qualquer apaixonado ou apaixonada)?

- Que força foi essa a de Anna Larina que, tendo o marido destruído e assassinado às mãos dos seus, o filho subtraído e obrigado a mudar de apelido, suportasse as penas de prisão, tortura e campos de concentração (sim, no Gulag, ó choramingas nos ombros dos tallibans vítimas de Guantanamo!), durante 16 anos e que, no final, acusou Estaline da parvoíce maior de permitir conservá-la no reino dos vivos, decidindo contar o que soube e sentiu, reabilitando-se a si e ao marido, recuperando para o filho o apelido de família.

- Que força foi essa para que esta mesma mulher, sofrendo e sobrevivendo por paixão, se recusasse a mitificar e a heroificar a vítima - seu marido e sua paixão - apesar de Lenine o ter apelidado de “filho mais querido do nosso Partido”, querendo-o humano (contraditório - corajoso na coragem, canalha na canalhice, revolucionário que não deixou de ser homem) para o sentir vivo e ao seu lado (seu homem, não seu herói)?

- Que talento foi esse, o de Anna Larina, para escrever com tamanho talento e força sobre uma das maiores perfídias entre as perfídias, através de um livro que é um hino de humanidade?

- Que monstruosidade foi (é) essa do Leninismo que permitiu que o mais incapaz mas mais cruel dos herdeiros de Lenine sentisse necessidade de destruir primeiro, liquidar depois, todos os companheiros de Lenine para que o Leninismo se realizasse?

- Que grande dignidade foi essa a do médico Ludgero Pinto Basto, homem de muitas lutas generosas, militante do PCP (e seu antigo dirigente ao nível do Secretariado), recentemente desaparecido (ler aqui), ter feito da tradução da obra de Anna Larina Bukharina um dos seus grandes e últimos projectos de vida e de luta, morrendo comunista mas não cego entre cegos (eu vi, com os olhos já a curarem-se das cataratas ideológicas, a bílis a subir aos olhos de velhos bolcheviques da fracção cunhalista do PCP quando, em 1988, Bukharin foi reabilitado e ... readmitido como membro do PCUS, enquanto desbafavam "traidor do Gorbatchov que até limpou esse traidor e fascista do Bukharin, onde nós chegámos!")?

(*) – “Bukharine, Minha Paixão”, Anna Larina Bukharina, Edições Terramar
publicado por João Tunes às 16:29
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