Sexta-feira, 29 de Abril de 2005

UMA ESTÁTUA PARA ENVERGONHAR COIMBRA (e não só)

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Tendo lido a crónica de Fernando Rosas (sim, é claro, também leio os bloquistas…) na sua crónica desta semana no Público, dei-me conta da inauguração em Coimbra, com pompa e circunstância, na coimbrã Praça dos Heróis do Ultramar, de uma estátua de enaltecimento guerreiro aos feitos portugueses na guerra colonial. Segundo Rosas, a estátua mete uma G3 nas unhas de um soldado de bronze, ao mesmo tempo que este segura, na outra mão, um pretinho (decerto salvo da sanha de recrutamento de um turra). A cerimónia foi presidida pelo Presidente da Câmara Municipal de Coimbra – Carlos Encarnação (PSD), também ele um antigo combatente (sei-o por prefácio lido em livro de memórias de um Coronel na reserva). Para não deixar de dar lustro à cerimónia, uma Brigada do Exército prestou honras e a Banda Militar da Região Norte tocou a preceito as marchas do costume. A notícia do evento, vinda no Público, tinha o título solene e apologético de ”Uma estátua contra o esquecimento”. Nem menos.

Esta é uma peça, serôdia mas perigosa, do processo do revisionismo sobre o colonialismo e a guerra colonial. E é de somenos saber-se se o modelo do soldado guerreiro imortalizado em Coimbra foi algum comando do “massacre de Wiriamu”, um fuzo da invasão da Guiné-Conacri na Operação ”Mar Verde” ou um desgraçado fardado à força e metido em beligerâncias defensivas da sua pele e próprias da tropa macaca. Quem sabe até se o escultor se inspirou em alguma fotografia minha perdida e do meu tempo de guerreiro na Guiné. Conta, mais que o modelo, a intenção e a visão histórica pretendida. Ou seja, o prolongamento, passo a passo, da estratégia montada por Paulo Portas, quando Ministro da Defesa, em virar a história colonial de pernas para o ar, dando alento ao orgulho castrense na sua participação numa guerra de conservação de conquista. Querendo fazer esquecer o óbvio – que devemos a liberdade do 25 A exactamente porque aquela foi uma guerra sem honra, contra a história e sem vitória possível. Uma guerra tão absurda, tão absurda, que transformou oficiais colonialistas em oficiais anti-fascistas.

Eles não desarmam. Desarmamos nós, os Outros?
publicado por João Tunes às 17:51
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7 comentários:
De Narcisista a 9 de Maio de 2005 às 00:25
A estátua já existia, só que foi mudada de local devido à construção do centro comercial Dolce Vita. O que torna a cerimónia ainda mais simbólica...


De Joo a 3 de Maio de 2005 às 16:01
Agradecido pelas achegas.


De BarMonteiro a 2 de Maio de 2005 às 22:08
Exemplo acabado de falta de um PM que governe para o futuro (a ex de Pombal).
Quanto ao «estado a que isto chegou», parafrazeando Salgueiro Maia, o Regime não teve ainda dinheiro nem ideias para uma estátua à Democracia. Na figura de Melo Antunes, p. ex.


De arcoma a 2 de Maio de 2005 às 17:37
É uma vergonha gastar milhares de Euros numa estatua, enquanto muitas Mães e viúvas recebem uma côdea da Chamada Pensão de Sangue pela Morte desnecessario de SEUS FILHOS.

Onde Para A Justiça Patriotica.....


De Manuel Correia a 1 de Maio de 2005 às 15:36
Mais de duzentos anos depois, os franceses (e nós tb) ainda nos desentendemos sobre a revolução de 1789. O envolvimento de Portugal na guerra colonial terminou há pouco mais de 30 anos... Convivemos inelutavelmente com versões diferentes do que se passou e, sobretudo, com sistemas de valores antagónicos na sua avaliação. O que se passa é que os colonialistas (ou nostálgicos do autoritarismo fascista) «plantam» estátuas nas praças do Portugal Democrático e Republicano, enquanto nós (os outros , como tu ironizas) chegamos a evitar o tema para não atrapalhar as agendas polítco-ideológicas dos nossos vizinhos de esquerda. A esse título (e a outros tb) é interessante ler a provocação de José Gil acerca da dificuldade dos portugueses em fazerem rupturas e em inscreverem certas mudanças. A pergunta que ocorre é: vamos deixar a coisa apenas por aqui ou promover a denúncia pública dessa unilateralidade populista?


De magude a 30 de Abril de 2005 às 22:57
Escrevinhei um dia um conto intitulado "Para que se não esqueça". Gostaria de ver erguido um monumento com esse título, mas não com a conotação aparente daquele agora inaugurado.
Para que se não esqueça que uma geração entrou numa guerra hedionda e saiu de lá estropiada moral e fisicamente. Para que se não esqueça que várias nações se viram privadas do seu direito a existir. Para que a história se não repita.
Mas há-de sempre haver alguém de balde de cal e brocha na mão, á espreita da nossa distração, para branquear mais um quadro da nossa memória...
Abraço,
José Carlos.


De IO a 29 de Abril de 2005 às 22:35
1. É evidente que esta estátua com este nome quer dizer Paulo Portas e todo o seu populismo barato e reaccionário.
2. Fui abertamente contra a guerra colonial. Mas, também sei compreender que ela roubou uma geração, os tais que foram 'um dia dar com deus à taberna do diabo/entre cristãos e ateus fizeram deles soldados e que sem querer foram embarcados', como cantava o Cília. E compreenderia a homenagem a esta geração (estátua ou outra coisa qualquer). Agora, nunca com a ideologia que a terminologia escolhida denuncia, de modo gritante. Abraço, IO.


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