Terça-feira, 19 de Abril de 2005

OS BANQUEIROS DE FRANCO

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Vai-se conhecendo bastante do intrincado político e militar que envolveu a Guerra Civil de Espanha (1936-39). Apesar de muito haver a investigar e a revelar. Porque as facetas são muitas, imensa a cadeia de episódios e diversos os ângulos de visão.

Tem-se uma ideia de quem estava de um lado e de outro. Como lutaram e porque lutaram. E como ambos os lados teceram as suas políticas de alianças.

Mas quanto ao essencial dos apoios, ou seja, quem sustentou em meios e dinheiro a revolta militar contra o regime democrático vigente em 1936, aparece normalmente como a face pouco iluminada do drama. Porquê? Naturalmente porque as grandes famílias multimilionárias, com a grande finança à cabeça, que apoiaram os insurrectos, atravessaram todo o regime de Franco a ampliarem as suas fortunas, “reconverteram-se” em 1975 à “transição democrática” e, hoje, continuam a dominar a maior parte da riqueza espanhola. Em termos pessoais, os “banqueiros de Franco” dominaram o aparelho de Estado do fascismo espanhol, beneficiaram do proteccionismo do ditador (proporcionando-lhe favores que constituíram a sua fortuna pessoal e de que hoje a família Franco continua a usufruir) e desenvolveram a teia da corrupção, do clientelismo e do nepotismo e têm-se mantido incólumes, mas cada vez mais ricos, desde a morte de Franco até aos nossos dias. As mudanças políticas, inclusive a alternância PSOE/PP, não beliscaram os interesses enriquecidos sob a protecção de Franco. Os “franquistas da banca” aí estão - de bem com a democracia e melhor com a sua riqueza, acções, bolsa e poderio económico. As excepções são reduzidas, uns tantos (muito poucos) que não se conseguiram adaptar aos novos ventos e foram apanhados na contra-mão. Mas a maioria, a esmagadora maioria, com o advento da democracia, transformaram-se em “democratas de toda a vida”.

Com a implantação da República Espanhola em 1931, os banqueiros não pararam de conspirar contra o regime. E quando o golpe de 1936 começou a organizar-se, foram eles que se ofereceram para pagar as despesas. Compraram primeiro os generais (com “seguros de vida” garantidos para as suas famílias), depois os meios para o início do golpe (inclusive o avião que levou Franco das Canárias para Marrocos) e o armamento comprado em Itália e Alemanha. Durante a guerra civil, os banqueiros estabeleceram-se junto ao governo dos sublevados em Burgos e aí construíram o controlo do sistema bancário, as peças chave da economia e o monopólio do sector financeiro que atravessaria todo o franquismo e se adaptou às regras da economia de mercado dos dias de hoje. Na verdade, os banqueiros investiram em Franco e ainda não pararam de cobrar os dividendos, não parecendo que alguém se disponha a fechar-lhes a torneira. O que só pode significar que o essencial da finança e da economia espanhola ainda é, agora mesmo, uma finança e uma economia nascidas, desenvolvidas e consolidadas, sem roturas, pelo e através do golpe do fascismo espanhol contra a democracia espanhola. Inclusive, os “mais ricos de Espanha” de hoje ou são os mesmos cavalheiros que financiaram Franco ou seus filhos e netos. E assim se pode dizer que, quanto a poder, o poder que mais conta, o poder que mais determina, a guerra civil não terminou, pelo menos quanto ao banquete dos ricos, sobretudo dos mais ricos – os verdadeiros (pelo menos, os principais) vencedores da guerra que matou um milhão de espanhóis e que só foi ganha pelos apoios de Hitler, Mussollini e Salazar.

A ligação entre o político, o financeiro e o económico durante a ditadura de Franco, era tecida na corte do Caudilho instalada no palácio de El Pardo. Os banqueiros que lhe financiaram o golpe foram, até à sua morte, nomeados Procuradores às Cortes, receberam títulos de nobreza (Franco fazia-o na sua qualidade de auto-proclamado “regente da Coroa Espanhola”) e cargos honoríficos, circularam entre lugares de ministros, direcção da Falange e Conselhos de Administração das principais Empresas (do Estado ou privadas) e dos bancos. Segundo a máxima de um dos “banqueiros de Franco”, José Maria Aguirre Gonzalo, a chave era: “O governo governa, a Banca administra e o espanhol trabalha”. E, volta e meia, pingava uma “prenda” para o próprio Franco e para a sua família (o imenso património imobiliário da família foi rapidamente, depois de 1975, transformado em cash que hoje alimenta as contas bancárias que suportam as vidas faustosas dos seus descendentes).

Para entender os mecanismos com que os “banqueiros de Franco” moldaram a ditadura espanhola e o tecido que ainda hoje veste a economia e as finanças de Espanha, a leitura de um livro fundamental se recomenda - ”Los banqueros de Franco”, Mariano Sánchez Soler, Editora Oberon.

Nota: Este post foi transcrito integralmente e considerado "post do dia" no jornal "A Capital" de 20.04.2005. Agradeço a informação ao meu amigo (sempre atento) João Carvalho Fernandes.
publicado por João Tunes às 00:37
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2 comentários:
De Joo a 20 de Abril de 2005 às 12:10
Volte sempre.


De vitor a 19 de Abril de 2005 às 11:04
Muito obrigado pelo prazer de leitura , quotidiana, tão " escorreita " e pedagogica .
É visita " obrigatoria ", com todo o gosto!
Cumprimentos .


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