Terça-feira, 12 de Abril de 2005

UM PÂNICO

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Uma das coisas que mais me engalinhou na nossa transição para a democracia (e continua-me atravessada) foi onde diabo se encafuaram os milhares de pides e de bufos que nos vigiavam, controlavam e, fosse caso disso, nos encafuavam nas masmorras.

Sabia-se, e confirmou-se, que além dos agentes activos da Pide, muitos milhares de desgraçados morais aboletavam mais uns cobres ao orçamento familiar, uns para comprar um par de sapatos para a filha adolescente não fazer má figura ao pé das amigas de liceu mais bafejadas pelo nascimento. Ou oferecerem ao puto primogénito uma bola catita para ele poder impor-se e ter lugar na equipa de futebol da escola, compensando através da propriedade do esférico a falta de jeito no avanço até à baliza. Outros apenas para a estroina ou para o verniz social - beberem uns copos, irem às putas ou ajudarem ao pagamento do carro novo. Eram os bufos - os desgraçados sem alma que nos escutavam, para contar aos seus controleiros profissionais, nos cafés, nos empregos, no autocarro, na faculdade ou na festa de anos. E eles sabiam que os sapatos da filha, a bola do primogénito, a farra, a queca e a prestação do carro tinham o preço de uma família a sofrer, torturas de criar bicho, a perda do emprego, a prisão. No entanto, eles escutavam e contavam. Bufavam. Porque para o fazer a única coragem que precisavam era a de se insinuarem e depois de ganharem confiança, espetarem a navalhada. Sem que o navalhado lhes soubesse o nome ou lhes distinguisse o rosto. Mas, no tempo, a cobardia era um valor bem querido.

Independentemente do caso de cada de um dos bufos, e da responsabilidade individual associada, a grande tragédia social com a rede de bufos que a PIDE foi tecendo está em que, desta forma, a miséria da delação era premiada, enquanto a coesão social se corroía com a sociedade portuguesa a tender para se dividir entre bufos e desconfiados. Porque quem não era bufo vivia na paranóia da prevenção ao bufo. E, desta forma, a PIDE atingia objectivos além da sua capacidade técnica de intervenção.

Por tudo isto, entrámos em democracia com uma sociedade cheia de merda na alma. Sem saber onde ela estava. Essa a forma como Salazar deixou uma herança além do seu exercício físico de tirania. E não limpámos a merda toda que veio agarrada aos sapatos que passaram a porta de acesso à democracia. Quanto aos pides, sabe-se – andam por aí a usufruírem das reformas de funcionários públicos que, diligentemente, serviram o Estado. Relativamente aos bufos, nunca se soube quem eram. Reconverteram-se no que lhes deu na gana, uns só falando de bola, outros passaram a camaradas dos que antes denunciavam. São eleitores e eleitos. Estão democratizados por via da impunidade. Porque a democracia igualou bufos a torturados por causa de uma denúncia. A merda, embora mais seca e inócua, continua agarrada aos nossos pés. Os velhos bufos, ou a hoje senhora que nos atende na loja e a quem o pai bufo lhe comprou sapatos pelo preço de anos de prisão, ou o hoje senhor com quem discutimos futebol e jogou à bola em miúdo à custa de perdas de emprego, estão connosco. São cidadãos a quem tratamos respeitosamente por Senhor Joaquim, Dona Amélia ou Dr. Serafim. Sabendo todos que não há saúde saída da merda.

Anda nas bocas do mundo a história das listas de pides e bufos encontradas na Maçonaria (por herança da Legião) e agora depositadas no cofre de um banco. Um estranho pânico apoderou-se de demasiada gente. Ai os direitos ao bom nome, ai os direitos à privacidade, ai, ai, ai. E eu, a isto, só digo: venha a lista e publique-se. Os bufos que peçam perdão a quem traíram a confiança, aos que meteram na prisão por uma ninharia, siga a dança. Retratem-se enquanto bufos. E depois cada um decidirá se o quer continuar a cumprimentar, beber com ele um café ou ir no mesmo carro a um estádio de futebol. Limpe-se a merda, afinal.

Claro que eu falo por me ser hoje fácil falar (sem pides e bufos). Falo de cátedra porque nesta vou de carrinho. Sei que o meu nome não está lá e arrisco, à revelação, toda a minha família e círculo de afecto. E se alguma surpresa me abrisse a boca de espanto, só ficava agradecido. Quem diz ai, ai, ai, tem medo de quê? Será medo, será gente, será a serena melancolia do vento que não bate assim?
publicado por João Tunes às 23:21
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3 comentários:
De Faneik a 13 de Abril de 2005 às 12:21
Desconfiados, invejosos, da cultura do medo e da serventia que vem de longe e nos tarda a passar.
Mas agora mesmo os estudantes do básico e secundário se manifestam, sem que eu e mais alguns saibamos bem porquê, porque lá será a consciência a despertar para algo que quanto mais nova é uma geração mais livremente se apercebe disso e sem talas nas vistas o vê.


De Carlos a 13 de Abril de 2005 às 00:37
"venha a lista e publique-se". Parabéns pelo post


De IO a 13 de Abril de 2005 às 00:12
Realmente, é incrível esta do esconder a lista no cofre, pior: é branquear! _ grande 'post', JT.


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