Terça-feira, 12 de Abril de 2005

PUDOR

Electroz.jpg

1965. Salazar ainda vivo e activo. Aljube, Caixas e Peniche em eficiente funcionamento. PIDE acordada. Jovens portugueses e jovens portuguesas em Moscovo, União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Clandestinos e clandestinas, PCP. Que tempo sugere isto? Que memória traz da enxurrada que não se pode apagar? Porque é de História que se trata, meus caros.

Que alegrias de conforto e de destempero juvenil, ou fogo juvenil com uma necessidade maluca de namorar, podiam ter três jovens portugueses clandestinos em Moscovo num trânsito de formação política na pátria do socialismo com o objectivo único de voltarem ao País para uma luta mais preparada e mais retemperada contra o fascismo. Em que tudo, TUDO, se arriscava? Sobretudo, como era o caso, em que a “tarefa” era dirigir a luta armada contra o aparelho repressivo-militar-colonialista do fascismo luso.

O Raimundo Narciso partilhou um testemunho cheio de frescura. E como o nome mágico da Estação ELECTROZAVODSKAYA (do metropolitano de Moscovo) acabou por ser tão banal como hoje é ouvirmos Rotunda nas voltas por baixo da terra na lusa capital.

Diz-se, não sei porquê, que as damas costumam ser mais pudicas que os cavalheiros. Quando oiço isto, torço o nariz de desconfiança. Porque me cheira a estereótipo construído. Com alguma razão, como se vê. Em tempos, uma companheira destas andanças juvenis do Raimundo, a Maria Machado, falando dos mesmos tempos (num depoimento que já transcrevi no meu blogue e que pode ser lido aqui), não teve hesitações em escarrapachar, preto no branco, que foi ali e naquele tempo, que ela iniciou a sua ligação amorosa com o Raimundo e que continua viva, agora na fase bonita de espalharem netos pelo mundo (o primeiro já cá canta). Curiosamente, neste relato, o Raimundo dá voltas e mais voltas, mete música, restaurantes e até compras, mas encolhe-se naquilo que se adivinha como a parte melhor dos passeios pela Meca do socialismo. O que vale, ó Raimundo, é que a gente te topa. Então, tu és capaz de gamar uma Estação à CP, acartando com a do Pinhão para Torres Vedras, e não tens a lata suficiente que dizeres que foi na Estação de Electrozavodskaya que tu e a tua gentil companheira constituiram um gang dedicado a roubarem o coração um ao outro?
publicado por João Tunes às 17:42
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De Joo a 12 de Abril de 2005 às 19:32
Decepção. Desde que ando na blogosfera já o transcrevi duas vezes nos blogues em que me tenho cansado a teclar. Prova que és maçarica na leitura dos meus notáveis e célebres blogo-escritos. Ainda bem, acrescento, senão já te tinhas cansado... Falando sério, o depoimento da Maria Machado é de facto notável - pela vida ali metida e pela espontaneidade viva, tranquila e autêntica como ela fala, com ternura e vontade positiva, a atravessar uma experiência tão dura. O que nós todos, os democratas do voto, devemos a mulheres de abnegação modesta como a minha querida amiga Maria Machado... (e ao Raimundo e outros...) Sei que ela é leitora aqui do meu blogue (mulher de silêncios sábios, talvez ainda a história das "companheiras", não se mete ao barulho mas dá-me um grito amigo cada vez que ameaço acabar com este vício). Se os olhos dela andam por aí, um beijo para ela e outro para ti.


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