Terça-feira, 12 de Abril de 2005

A ÁRVORE DE GUERNIKA

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Já disse que, sempre que possível, rendo culto a Guernika. Por aquilo que ela representa, em afirmação identitária que recusa diluir-se numa qualquer amálgama, e na aproximada medida da simétrica rejeição do etno-racismo basco e do eta-banditismo.

Uma amiga fala-nos de “A árvore de Guernika” (fisicamente, já falecida)”. Trata-se de alguém que muito sabe dos sentires que resistem às transplantações de continentes e de oceanos. Uma mulher sábia, portanto. E de uma mulher sábia só se pode esperar (e exigir) o melhor e mais bonito. Para mais, ela terá agarrado aos olhos as cores e os cheiros das saudades feitas palmeiras, mangueiras, acácias e imbondeiros. Quem sabe até se a savana não se lhe meteu nas pestanas para lhe vigiar a medida do olhar. Portanto, uma mulher sábia, com árvores a sacudirem-lhe a alma com a memória de mil folhas e apelos, vestidas e vividas de mil maneiras. Aqui, bate o busílis – quando é que uma árvore nasce e quando se sabe que ela morre? E, então, só posso concluir que a Isabella anda esquecida do tempo em que aprendeu com árvores, talvez por se distrair a olhar para o Índico e, depois, pela pressa de ver além dos Pirinéus, saltando espaços em branco. E povos que são elos da nossa continuidade e presença. Porque, cara Isabella, será mesmo verdade que as árvores morrem? Duvido e mais duvido ainda que morram de pé como sói dizer-se. Cair, isso caem. Como tudo, embora com uma dignidade própria na forma de beijarem o chão. Mas qualquer árvore vive para além do tombo. No mínimo, porque uma árvore nunca morre nos olhos de quem a viu.

As tribos bascas tinham o uso de se reunirem para deliberarem debaixo de uma árvore. Era a sua forma de improvisarem um habitáculo com solenidade deliberativa sem perderem de vista os vales, as montanhas, os inimigos e, provavelmente, os rebanhos e o mar onde largavam os barcos e estendiam as redes. Em Guernika estava a árvore maior (simbolicamente) onde se reuniam os representantes de todas as tribos para decisões em nome do povo. Nenhuma árvore aguentaria as vidas de todos os povos bascos. Porque, para isso, teria de ser uma árvore eterna. E a eternidade é, para além dos santos, apanágio dos povos que fazem disso a sua teimosia. A última árvore que abrigava a reunião da tribo das tribos remontaria ao século XIX. Era uma árvore madura, veterana a caminhar para anciã, quando os nazis da Legião Condor, a pedido de Franco, largaram as suas bombas sobre Guernika, matando a esmo a população civil (Guernika não era objectivo militar ou estratégico), incendiando e atingindo cirurgicamente a árvore-símbolo da soberania basca. Sobre isso, Picasso pintou o que jamais as palavras poderão dizer.

A árvore-símbolo da soberania basca resistiu, embora muito ferida, à Legião Condor e à ditadura de Franco (em que falar basco na rua dava direito a prisão). Há poucos anos deixou de alimentar-se pelas raízes. E talvez tenha sido por isso que a Isabella falou da sua “morte física”. Mas o que é morte mesmo morte de uma árvore? Falando, como é o caso, da árvore da identidade e da soberania basca. Para mais, sabendo-se que o simbólico não tem morte se o oprimido não o permitir. Os bascos acarinham a sua árvore de Guernika mais que nunca, talvez em compensação pelos muitos anos em que lho proibiram. Quando a velha árvore teimou em deixar que as suas raízes procurassem alimento, deram-lhe guarida de culto e ela lá está no orgulho das suas feridas afirmando a teimosia basca, amparada numa espécie de relicário.

Foi essa árvore que mais uma vez visitei, rendendo-lhe o meu culto pagão de admirador da dignidade basca que procuro não contaminar com concessões à paranóia de assassinos que falam em seu nome, sujando-a.

E nesta imitação de desconserto improvisado, eu termino a copiar, com a ternura de irmãos no desejo de um mundo melhor, a excelente letra com que a Isabella, um dia, encheu uma canção para violar:

P
de Pablo
de pomba
e de pincel.
P
de Prado
mas, olha, de passagem.
Venhas de Montmartre
Lisboa ou Nova Iorque
a Pablo
uma canção.
E tu põe
”Guernica”
à sombra dessa árvore
deixa, enfim,
que a tela seja basca.
Venhas por Pamplona
por mar
ou por Bayonne
a Pablo uma canção.
publicado por João Tunes às 01:28
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5 comentários:
De Joo a 12 de Abril de 2005 às 15:27
Entendidos estamos. Porque isto de árvores tem muito que se lhe diga. De facto, a última árvore de Guernika já não tem vida através das raízes mas mantém a vida do culto simbólico. E resiste. Assim e no seu relicário de identidade basca. Só o facto de ter posto a IO e a th a pesquisarem sobre ela, mais eu a sentenciar armado em especialista que não sou, confirma que a árvore de Guernika continua viva, apesar de Franco e da Legião Condor. (e da ETA, para que o ramalhete não fique a meio). Abraços às duas.


De th a 12 de Abril de 2005 às 12:01
Como curiosidade, encontrado no Google:
A escolha da pequena Guernica deveu-se a vários motivos. A cidade era um alvo fácil, sem proteção antiaérea, além de não ter uma população numerosa. Além disso abrigava um velho carvalho (Guernikako arbola) embaixo do qual os monarcas espanhóis ou seus legados, desde os tempos medievais, juravam respeitar as leis e costumes dos bascos, bem como as decisões da batzarraks (o conselho basco).


De IO a 12 de Abril de 2005 às 11:35
3. Já foi, igualmente, feita a correcção, em adenda, no meu blog _ e vai mais um Abraço!, IO.


De IO a 12 de Abril de 2005 às 11:18
2. Mas, fico muito feliz de tão grande património estar comprovadamente de pé! _ IO, com feliz Abraço.


De IO a 12 de Abril de 2005 às 11:04
Olá João: Quando afirmei 'fisicamente, já falecida' foi baseada nesta informação*, de 'O roble de Guernica': "A célebre árvore de Guernica morreu(...)terceiro exemplar de uma série de robles centenários, desde o século XIV, a velha árvore com quase 150 anos de idade, tinha escapado ao destruidor bombardeamento (...)mas não resistiu agora a uma doença de vários anos.(...)" _ fim de citação (creio que este artigo até é do 'puxa palavra', mas foram tantos os links que abri ontem no motor de busca, que já não sei, peço DESCULPA ao autor). Para mim, IO, ela, 'A Árvore de Guernika' há-de estar SEMPRE viva!!! _ grande abraço, IO.


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