Domingo, 10 de Abril de 2005

O POVO MAIS CLERICAL E EU MAIS MONÁRQUICO?

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Olhando de relance, apercebi-me que a “cultura comum” se deixou esmagar pelo desfile dos “amantes sublimados” vestidos de cardeais em culto papal, enquanto torceu o nariz perante o matrimónio carlista/camilista.

Surpreendeu-me a rejeição a Windsor. Mas tentei entendê-la. Seria a dificuldade de transição de se passar, num ápice, de um funeral para um casamento? Ou uma rejeição genuína, talvez jacobina, às representações das realezas? Saturação apenas?

Ouvi, procurei ouvir, dei uma mirada de relance à tv. Porque alguma coisa não estava a bater certo neste encadeado mediático Clero/Nobreza para completa felicidade do valente povo e imortal. Eis senão quando consegui vislumbrar, nos olhares de Carlos e de Camila, afectos que sobreviviam ao ritual da encenação. Isolando-lhes os rostos, aquilo passou-me um sentimento de autenticidade de duas pessoas que se amam. Nada garanto mas não posso mentir o captado de relance e que vale o que vale. E depois ouvi em que se concentravam as resistências à adesão: a alma de Diana – o anjo bom e traído, a Camila feia e perversa, uma ligação com o opróbrio do adultério, as idades (mais próprias para o juízo que para o amor), ela mais velha que ele, as pernas da Camila que mereciam vestido mais comprido, as limitações ao uso de títulos, o atraso na probabilidade de sucessão, as reticências da própria família real, por aí fora e pior.

Continuando a pensar, li alguém que ajuda a meter os pontos nos ii : ”No caso em apreço, chega-se a comparar Camila com Diana, para concluírem que aquela é feia, um estupôr, uma oportunista. Esquecem todos que, nestas questões de amor entre homem e mulher, o que mais os une não é a beleza ou a idade, mas sim a "química" do instinto que os atrai; pode ser fatal, mas é uma força que os impele a unirem-se. Quando se fala de amor, liga-se este, a afecto, amizade, carinho, ternura, meiguice, adoração. Mas tudo isto não passa de jogos de sedução para alcançar um fim: o sexo. Depois, o "amor" esfuma-se... No presente caso, trata-se de empatia, emoção, envolvimento, compreensão, instinto -- um verdadeiro amor que resistirá a tudo e todos, e acabará por vencer todas as barreiras, todos os obstáculos que se oponham à sua união. O amor é cego, diz o povo. O amor, para ser, não precisa de olhos. Basta ter o coração, instinto. Quem ridiculariza o casamento de Carlos com Camila, não conhece os laços afectivos que levam os amantes a renunciar a um reino...”. Eu direi: se é assim com os plebeus porque havia de ser diferente com os “reais”?

Venha, para compor as coisas, devolvendo o agrado tranquilo às multidões, uma nova cena que meta amantes virtuais, projectados em amor a Cristo e a Maria, para compensar a falta dos entorses das paixões humanas. Na Igreja, não há mulheres de pernas feias, nem mulheres perversas, nem mulheres adúlteras, porque não contam (e quando contam, para exemplo, concebem bebés sem perder a virgindade), elas ficam na galeria a apreciar homens vestindo saias, auto-dispensados do amor feito em gente. Pela minha parte, confesso que me emociono mais com a obstinação de dois amantes, venham de onde vierem, estejam onde estiverem, façam o que fizerem, que a perversa paz litúrgica das sotainas. Se a escolha só pode ser entre tais polos, a escolha está feita.
publicado por João Tunes às 16:37
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4 comentários:
De Joo a 12 de Abril de 2005 às 15:45
Uma simpatia os meus visitantes. Agradeço a todos.


De Evaristo a 11 de Abril de 2005 às 17:27
Amigo João: Você completou o quadro, sobre os amantes, que eu procurei esboçar; conseguiu dar-lhe traços mais fortes e matizar as cores que melhor o identificam. Obrigado pelo complemento.
Em silêncio, mas com assiduidade, tambem eu sou leitor dos seus posts. A descrição da sua recente viagem por terras do Douro, é bem o testemunho de muitos de nós, que nascemos nas terras altas, mas cuja memória nem todos conseguimos relatar nos termos em que o João o faz: amor pelas origens, apreço pela paisagem e registo do património arquitectónico.


De L. a 11 de Abril de 2005 às 14:26
A começar pelo funeral e a acabar no casamento, tudo me parece "pão e circo", com exibições fora do Coliseu de Roma. Resumindo, teatro do princípio ao fim e sem qualquer garantia de verdade, seja no que fôr e muito menos nos sentimentos.
Curiosamente esperando o futuro para ver no que vai resultar o casamento e o entusiamo religioso...


De th a 10 de Abril de 2005 às 22:36
Meu caro amigo, falando forte e feio (às vezes apetece...)eis aqui dois com os "ditos" no sítio! e tenho dito, th


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