Domingo, 10 de Abril de 2005

CINCO CIDADES E PICOS (5 e último)

espanha 143.jpg

Muito acercado à orla marítima do Cantábrico, incrustados em três províncias (Leão, Cantábrico e Astúrias), ergue-se o esplendor de maravilha dos vales e montanhas chamadas de Picos da Europa. Ali, pode-se ficar o tempo que se ficar que a vista verá sempre pouco do que há para ver. Tem tudo para encantar e que, julgo (estou longe de tudo conhecer) não tem paralelo com outro local europeu (qual Suiça, qual carapuça) – vales contínuos por onde conduzir é uma bênção de gozo, terreolas de impressionante simpatia simples (Potes é uma pequena maravilha) cavadas nos vales com pequenos rios à vista, sítios à farta para se dormir e se comer, teleférico para viagem e vista memoráveis, montanhas imponentes recortando o céu, neves sempre eternas nos pontos mais altos, vistas, vistas e mais vistas. Pois, é verdade, não conhecer os Picos da Europa é ter-se o céu à mão de semear e passar-lhe ao lado. Ali, de facto, o único senão é o tempo disponível para lá se estar. Será sempre de menos.

Covadonga, enfim, é a Covadonga. Bonito é o sítio. O pior é o resto (a parte simbólica) que eu, pela parte que me toca, bem dispensava. Pois, o Don Pelayo que Franco bem usou e abusou mais o mamarracho neo-gótico avermelhado. Mas enfim, bonito é. E Covadonga tem a grande vantagem de demonstrar como Fátima é bem feia e mastodôntica. E aqui fica a homenagem possível ao culto a Don Pelayo que o Raimundo Narciso aqui convocou (ou provocou?).

A seguir a Covadonga (obrigando a regresso pela mesma estrada) lá estava a placa a indicar o local dos lagos a 11 quilómetros. Pensava eu que se ia ter aos tais lagos através de vales, imaginando o objectivo num baixio (li depois, quando dele já não podia tirar proveito, o aviso do amigo Werewolf). Afinal, os lagos estão numa enorme altitude e, para lá se chegar, são os tais 11 quilómetros sempre em subida permanente e inclinadíssima numa micro-estrada (em termos de largura) e sem pinta de bermas. No vale de Covadonga, a visibilidade era perfeita pelo que não hesitei no ataque ao caminho. Passados os primeiros dois quilómetros, a neblina (nuvens baixas, suponho) meteu-se até que cheguei rapidamente ao ponto de visibilidade nula, absolutamente nula (os faróis só serviam para iluminar frouxamente um palmo à frente dos pneus). Os últimos sete quilómetros foram feitos sem nada que se visse a não ser os sinais dos faróis dos carros que vinham na descida, a tempo de usar a perícia máxima para o desvio necessário e suficiente da outra viatura e da ravina. Um autêntico suicídio sem meio de retorno (não havia qualquer margem para manobra de inversão de marcha). Certo, nunca maldisse tanto a minha vida como naqueles infindáveis 22 quilómetros (o regresso foi do mesmo, embora mais afastado da ravina), para mais com a minha companheira em pânico porque, no seu lado, ela teimava em que já estava a ver os pneus em pleno espaço sideral. Chegado ao cume, um desvio aparece dirigido a um restaurante, hora de manobra rápida para o atalho, uns minutos para abrandar os tremeliques nas pernas e depois iniciar a descida para que o pesadelo tivesse termo. Quais lagos, qual carapuça. Deviam andar por lá, claro que deviam. E que são bonitos, isso são, como comprovei por fotografias tiradas em dia de boa visibilidade e que encontrei num quiosque de recuerdos. Restou-me a vingança, na saída de Covadonga, de um enorme manguito que atirei às fuças em bronze do altaneiro e mata-mouros Don Pelayo. Improvisar tem os seus sabores mas também os seus custos. Se tem. Mas, a não ser assim, viajar tem alguma graça? Acho que não (agora que o suor frio já secou há uma data de tempo).

(imagem do autor – caminhando pelos Picos da Europa)
publicado por João Tunes às 02:19
link do post | comentar | favorito
|
2 comentários:
De Joo a 12 de Abril de 2005 às 15:54
De acordo, caro jvn. Embora, no meu gosto, privilegie o conjunto Astúrias-Cantábrico-País Basco (até dava, de borla, a Galiza ao Arcebispo de Braga). Mas e o Sul? E o Levante? E Madrid, Barcelona e Valencia? E essa cidade maravilha chamada La Ronda (há "coisa" mais bonita no mundo)? E... E... E uma Espanha que nunca é igual e parece não ter fim? E o gozo de voltar a Portugal com uma enorme sensação de alívio de não sermos Espanha? Porque Portugal, afinal, não passa de um país-sofá onde descansamos da canseira que é conhecer e viver Espanha.


De jvn a 11 de Abril de 2005 às 10:21
muito interessante a crónica desdobrada sobre os "Picos". O norte espanhol da Península diz-me bastante, sobretudo Galiza e Astúrias, e nesta perspectiva claramente portuguesa tenho reencontrado o "espírito" que por lá habita. :-)


Comentar post

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Setembro 2007

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30


.posts recentes

. NOVO POISO

. SOBRE A EDUCAÇÃO TESTEMUN...

. UM ÁS DO CASTRISMO

. SOBRE A EDUCAÇÃO TESTEMUN...

. SOBRE A EDUCAÇÃO TESTEMUN...

. ENTÃO, O QUE TENS FEITO ?

. O QUE TEM DE SER A EUROPA...

. O QUE TEM DE SER A EUROPA...

. O QUE TEM DE SER A EUROPA...

. QUE FORÇA É ESSA?

.arquivos

. Setembro 2007

. Junho 2005

. Maio 2005

. Abril 2005

. Março 2005

. Fevereiro 2005

blogs SAPO

.subscrever feeds