Sexta-feira, 8 de Abril de 2005

DOLORES

Imagens antigas 016.jpg

As mulheres têm uma própria e subalterna relação com a Religião e com a Revolução. Num caso e noutro, são consideradas, consideram-se, partes ricas da ementa. Mas, por norma, entram no capítulo das sobremesas. Sendo, uma e outra, “empresas” masculinas, com tendências fortemente misóginas, a mulher não lhes é dispensável. Pelo contrário. Num caso, elas estão marcadas pelos limites do culto mariano que talvez seja a cultura (e propaganda) mais redutora a traçar o limite feminino, embora o fervor ilimitado da sua capacidade de devoção seja explorada até ao infinito. No outro, elas são uma bandeira de luta mas, na praxis, atribui-se-lhes a doação da abnegação em serviço de companheiras, premiando-as com um capítulo de carinho no tomo do martírio. Em ambas “empresas”, elas, por regra, aceitam as regras. E isso faz o equilíbrio das coisas.

Sobre Religião, hoje não ponho mais na escrita, porque aqui já abusei a meter-me num negócio em que sou estrangeiro com forte tendência para a heresia.

Figuras fortes na Revolução, marcando rumos, temos homens – os revolucionários. É deles o reino dos senderos luminosos. Mas, como toda a regra, interessantes são as excepções. E o que sobra no património, além dos martírios da abnegação de figuras que tudo deram sem direito a liderança ou disputa dela? Pois temos Rosa Luxemburgo (mesmo assim, com liderança e produção teórica repartida), talvez a mais brilhante e criativa entre as revolucionárias. Mas o caso mais apelativo e mais forte morou bem perto de nós. Que é, julgo que sem dúvida, até pela extensão no tempo e através dos tempos da força do mito, a espanholíssima Dolores Ibarruri – La Pasionaria.

Passada a fase da inibição por mor das obediências por via do culto obrigatório, sempre me atraiu a decifração desse enigma chamado Dolores. Tentando entender-lhe a dimensão entre o nevoeiro do mito. Percebê-la. Com um enorme fascínio de atracção. Tentando ser justo na sua humanização. Não perdendo o amor devido para quem tinha empurrado os espanhóis a enfrentarem o fascismo, desprezando a vida e o oportunismo, confrontando-os com a vergonha maior da cobardia. Ou seja, experimentando a reserva de força de dignidade de quem se afirma como macho na vida e na obra.

Uma surtida numa livraria de Gijón, há pouco tempo atrás, meteu-me no saco de viagem o livro que esperava (*), entre uns tantos mais que me descompuseram o orçamento. Foi um deslumbramento partilhar com o historiador Juan Avilés o seu acto criativo de desmontar o mito sem perder a mulher que estava lá dentro. E talvez seja mais correcto dizer, em vez de desmontagem do mito, que se trata de uma reconstrucção da mulher Dolores feito com pinças de rigor entre as teias do mito. Operação só possível agora, com arquivos acessíveis que antes eram de acesso impensável, num tempo em que a paixão abrandou e os espanhóis apostam na recuperação da memória perdida que se queria esquecida.

Um dia, se der, voltarei a falar da Dolores que conheci com a ajuda de Juan Avilés. Até lá, fica a referência para os interessados e as interessadas. Sobretudo para estas, as que também andaram e andam pela Revolução, apesar da misoginia estrutural e estruturante da “empresa”.

(*) – “Pasionaria – La Mujer y El Mito”, Juan Avilés, Edição de Isabel Belmonte López – Plaza Janés.
publicado por João Tunes às 17:28
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10 comentários:
De Joo a 8 de Abril de 2005 às 23:37
Que coisa! Isto foi preparado para ser um post sério, com convite à reflexão e ao debate. Coisa de via para o socialismo. As companheiras alambazaram-se, tomaram conta do quiosque, anarqueiraram a coisa, meteram aldrabas, coca-colas, 7up, campinos, boleias e festanças de parabéns, estragando-me a obra. Haja respeito pela venerável revolucionária falecida. Por favor. Porque assim, de companheiras não passam...


De IO a 8 de Abril de 2005 às 22:58
Mas, como é que este senhor gajo adivinhou que a 7up natural é o que acho melhor para a ressaca?... mas a festa ainda não começou, que o Gil só faz 50 a 9 de Abril... quanto ao atravessar a Espanha, é precisamente isso, oh da faiena!, é que por causa do terrorismo, não se consegue apanhar boleia em Espanha (fiz uma vez Madrid-Lisboa e jurei para nunca mais, 24 horas até Cacilhas...). A partir daí, só saí de Vilar Formoso com boleia assegurada a Hendaye!

Beijo, estou a preparar as latitas para a festa do de Almeirim!!


De Joo a 8 de Abril de 2005 às 22:47
Alto lá, IO, alto lá. Campino é o Web de Almeirim que, quando muito, tem direito a sorte de varas e o melhor que lidou foi promover o general de patilhas com andar de manequim que parecia ter engolido a vara em sorte virtual de estocada inteira. Eu sou "matador", embora prefira ver os bravos bem ao longe. Quanto a isso da Espanha ao lado, maior treta ainda é. Se não me engano, as passeatas até Itália, França e mais UE, obrigavam a passar por terras hispânicas. E sai um 7up para a ressaca.


De IO a 8 de Abril de 2005 às 21:19
Oh, marmanjo, estás-te a esquecer que eu não cresci com a Espanha ao lado? Os meus vizinhos falavam inglês, oh campino!
beijo danado, uma coca-cola.


De Joo a 8 de Abril de 2005 às 20:22
Percebi. Estás cá com um jogo de cintura! É das aldrabas. Aldabrão sou eu e não aldrabo tanto...


De Guida Alves a 8 de Abril de 2005 às 18:23
Juan, hermanito: não gosto de ler, porque nme atrapalho sempre na tradução ou perco o tempo a saborear a "sonoridade escrita" das palavras. Porque a língua falada, me gusta muchisimo!


De Joo a 8 de Abril de 2005 às 17:59
Estava a descompor a Guida e, pelo meio, apareceu outra preguiçosa à espera da tradução. É por essas e por outras que vc não passam de companheiras... Aliás, é pouco provável que, nos próximos tempos, a obra apareça com versão em português. Já agora, Maria Lamas veio a propósito de quê? Grande senhora, corajosa democrata, antifascista é claro, intelectual de mérito, feminista insigne, mas até revolucionária faltou sê-lo, no quadro em que uma figura como Dolores se pode encaixar. Ainda se me falasses da Cândida Ventura (mas a essa é pouco provável que lhe dediquem exposição)... Abraços às duas e sem mais que isto de desatinar com duas ao mesmo tempo é por demais arriscado.


De Joo a 8 de Abril de 2005 às 17:51
Querida Guida, essa aversão ao castelhano não é apenas preconceito? Eu sei que não és aficionada, mas como se pode entender e gostar do país (vários países em um) mais fascinante do mundo sem se entender (ou tentâ-lo) o castelhano? Lorca ou Alberti traduzidos? Ora. Semprún traduzido? Ora, ora. Uma tourada sem Olé? Ora, ora, ora. Comunicar com eles sem um "Vale?" ou um "coño!"? Ora, ora, ora, ora. Os únicos artistas espanhóis de que se dispensa a língua, são os pintores. Vá lá, preguiçosa! Mesmo com os equívocos pelo meio, como me aconteceu quando, nas Astúrias, eu e a Cecília pedimos "fabada" com o paladar a antecipar gosto a favas e sair-nos uma feijoada... A sério, recomendo-te a obra, é de não perder. Magnífica e não aleija crentes nem ateus. Beijão.


De IO a 8 de Abril de 2005 às 17:49
Gracias, Juanito! _ outra à espera da tradução. Já agora, abre amanhã, na biblioteca municipal da Amadora, uma exposição dedicada a Maria Lamas.


De Guida Alves a 8 de Abril de 2005 às 17:36
Boa dica. Por outro lado azar meu que detesto ler o castelhano! Não apareça uma traduçãozita em português e lá se vai a oportunidade de uma boa a proveitosa leitura...


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