Quarta-feira, 6 de Abril de 2005

AINDA O SALAMALEQUE A GUEBUZA

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Há umas semanas, dei conta de uma biografia de Guebuza que me caiu nas mãos. O livreco saiu-me tão intragável que de muita teimosia precisei para lhe chegar ao final. Mas como Moçambique, volta e meia, vem-me à baila, não quis passar ao lado da revelação de uma figura que, por votos moçambicanos, é Presidente da sua República. Pouco fiquei a saber da notável personagem presidencial, tamanhos são os apagões no seu trajecto e mais tamanhos ainda são os panegíricos sebosos do académico bajulador. Por pudor, apesar de desafiado para isso, faltou-me então ânimo mínimo para dar conta do meu balanço final sobre a obra, tamanho foi o asco perante a persistência de ver Moçambique presidenciado por quem não merece aquele povo nem a sua luta de libertação (e pior nos casos Chissano e Guebuza, porque foram seus combatentes). Porque a manipulação, que só pode ser oficializada, exposta naquela obra só pode significar que Moçambique continua na senda do capitalismo selvagem mas conservando, do tempo m-l, a indignidade da manipulação histórica em que Academia rima com Propaganda.

Acabo de receber mail de um leitor (Casimiro Serra) que me envia uma crítica ao livro. Como reconheço que fiz mal em ter-me calado por asco, compenso isso passando-lhe a palavra (sem que partilhe, na íntegra, os seus pontos de vista):

”A leitura deste livro, obra de um pretensioso e nada modesto "professor doutor com tese de doutoramento" que até gasta algumas das páginas iniciais a explicar porque é PHD !!! (Páginas XIX e seguintes...), é algo de confrangedor e à boa maneira das escolas do desaparecido leste socialista, faz da história uma ciência revisionista, em que a verdade dos factos é a verdade da ideologia que perfilha.
Renato Matusse tentou branquear a história recente de Moçambique neste pretensa biografia de Armando Guebuza, para tal, a verdade dos factos foi completamente escamoteada e tudo o que era incómodo (Factos, nomes, acontecimentos etc), foi pura e simplesmente omitido!
Vejamos.
Sobre a história da luta de libertação nacional e as negociações de Paz e o Acordo de Roma que conduziu ao pluripartidarismo.
No primeiro caso, foram omitidos todos os nomes dos chamados ‘dissidentes’ (Miguel Murrupa, Joana Simeão, Domingos Arouca, Uria Simango, Lázaro Kavandame, etc.), que se crusaram inevitavelmente com o ‘biografado’ além de não terem existido diversos acontecimentos negros na história da FRELIMO, como a luta pelo poder entre o grupo de Simango e a ala marxista de Machel e Marcelino, a morte de Filipe Magaia e a ascenção de Samora no Departamento de Defesa, bem como a luta em torno da Escola de Quadros em Dar-es- Salam, entre muitos outros episódios...
No segundo caso, Armando Guebuza surge nesta ‘obra biográfica’ como um autêntico herói do diálogo e da Paz! A ele se deve êxito das conversações de Roma, que conduziram o país à paz e às primeiras eleições pluripartidárias! Ok, mas afinal, essas conversações foram realizadas com quem? O leitor que não souber ou que tiver dúvidas fica sem saber com quem foram feitas essas negociações e quem foram os seus protagonistas, para além do herói Guebuza obviamente!
De facto, o autor cometeu a proeza de nunca referir que Armando Guebuza representava uma das partes da guerra civil, a FRELIMO, e que do outro lado havia a RENAMO que por seu lado tinha uma delegação chefiada por Raúl Domingos...
Nem uma única vez os nomes de Raúl Domingos (o outro negociador a quem se deve a mão estendida e a deposição das armas da guerrilha), Afonso Dhlakama, Vicente Ululu Joaquim Vaz, ou até a sigla do próprio movimento com quem foi estabelecida a paz são editados nesta pretensa obra, do tipo biográfico e histórico.
Armando Guebuza foi "o negociador chefe para a paz em Moçambique", escreve o autor, mas afinal negociou com quem? Nunca se refere com quem afinal foi negociada a paz...
Jacinto Veloso foi à África do Sul negociar a paz em 1984, e nunca se diz com quem... Negociou com os sul-afrianos e com uma delegação da RENAMO, composta entre outros por Evo Fernandes e Joaquim Vaz, pois para tristeza do autor até foram publicadas fotografias do fato na imprensa internacional!
Se afinal Armando Guebuza negociou com ninguém a paz em Roma, esteve lá porque "haveria a garantia de que a FRELIMO não iria negociar a capitulação nem a partilha do poder..." É assim que o autor, suprime factos importantes da realidade (a outra parte nas negociações), e logo a seguir cita o seu herói como sendo uma garantia de que não haveria rendição ao adversário... Mas, afinal esse adversário que nunca se cita é existente e amedronta ou a garantia de que não haveria capitulação do governo da FRELIMO não passou de um sonho mau?
De facto, a falta de rigor e qualidade deste ópusculo ideológico, tipo livrinho de propaganda, é tanta que fiará na história recente de Moçambique, como tendo sido escrito por alguém, que apesar de puxar pelos seus galões de ‘professor doutor’, não passa de um bajulador e o pior do que os brasileiros chamam de ‘puxa saco’, ou em português vernáculo ‘graxa’.
Duas notas finais. No prefácio do livro, assinado por Joaquim Chissano, é referido que Armando Guebuza é "o meu ‘compagnon de route’ " !!! Mas, alguém tinha dúvidas que os dois homens sempre foram cúmplices? Era preciso dizer publicamente nesta pretensa biografia?
A última nota para o texto inserido na contra-capa, assinado por Nelson Mandela. Diz o ex-presidente sul-africano que Armando Guebuza "era um homem de talento excepcional" e que há muito houvia referência sobre a sua popularidade... Se Mandela se desse ao trabalho de, à semelhança do que fez na África do Sul com a ‘Comissão da Verdade e Reconiliação’, ouvir os moçambicanos, ficaria de certo a saber quem foi o autor e protagonista das expulsões dos portugueses "20/24" com os passaportes carimbados como traidores e as rusgas nas cidades em busca de tudo o que era contrário à FRELIMO para produzir o ‘Homem novo’ frelimista através do internamento nos Campos de Concentração das províncias nortenhas, onde pereceram milhares de pessoas sem que até hoje os familiares conheçam sequer o destino das suas ossadas!
Obviamente que esta acção e responsabilidade de Guebuza é também completamente omitida. Afinal, toda a verdade histórica é omitida.
Ingloriamente, porque muitos moçambicanos já tiveram a coragem de por em letra de imprensa os seus testemunhos, que têm dado a conhecer a verdadeira face deste heróis solitários de coisa nenhuma, porque segundo Renato Matusse só os próprios existiram...
Este é um livro que deve ser lido e guardado para ficar a conhecer o caracter dos seus autor e ‘biografado’. A não perder e ler rapidamente para acreditar.”
publicado por João Tunes às 12:26
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2 comentários:
De Joo a 7 de Abril de 2005 às 23:01
Obrigado Carlos pelo depoimento. Abraço.


De Carlos a 7 de Abril de 2005 às 01:04
Guebuza... Guebuza... como eu receio que sejam mais dez anos ou mais sem tanto do que falta do que a todos falta ser assim monopolizado, 'famílias', elites viciadas na sua sobrevivência que é dominar e acumular, sempre mais, mais... e fora das suas janelas falta a todos, não são manchas de pobreza pois as dum viver confortável são estrangeiras ou excepção.
Ainda há dias atrás estive a reler uma entrevista dele, de campanha eleitoral e cheia de plástico polido, em que ele não tem a humildade de reconhecer que errou, como todos mas numa altura em que ele era o poder, e este era muito severo com quem dele discordasse. Nada. Diz não se arrepender de nada, plástico; disse-o em Setembro ou Out e hoje continuo a achar que ele 'cheira' mal.


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