Sexta-feira, 27 de Maio de 2005

UMA EFEMÉRIDE DE CHAGA ABERTA

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Como bem diz o WR, 27 DE MAIO DE 1977 é um dia macabro da história recente de Angola.

Hoje, visto à distância - e a história não pode desandar a sua roda -, sobra, sobretudo, a indignação que não pode calar-se perante o querer esquecer a memória desse monstruoso banho de sangue que atirou dezenas de milhares de angolanos para a marginalização, o desaparecimento ou, a maioria, para a vala comum. E nenhum dos chacinados, social ou fisicamente, teve direito a outro julgamento e processo de culpa que o ódio das barricadas. Nem à reabilitação que lhes compete. E às famílias dos fuzilados continua-se a negar a identificação e recolha dos corpos dos seus e o direito mínimo a dar-lhes uma sepultura para dirigir-lhes lágrimas particulares, íntimas, de afecto no luto.

O ódio fraticida, talvez o pior dos ódios, encharcou Angola de muito sangue e muita dor no período de dois anos de ressaca cruel da “insurreição nitista”. Não tenho qualquer ilusão que, se a fracção de Nito Alves & Cª tivesse saído vitoriosa em 1977, a orgia sectária e vampiresca teria outros fuziladores e seriam outros os fuzilados, sendo parente bem próximo, ou pior, na cegueira do ajuste de contas. Mas um fuzilado insepulto é sempre uma vergonha, seja castanho ou vermelho. E, no caso, eles, como costume, pertencem aos “vencidos” (os “nitistas” ou como tal considerados). Os perdedores, numa luta de mata ou morre, são sempre as vítimas. E só perante as vítimas nos podemos vergar em respeito e exigir, em seu nome, o respeito merecido. Quanto aos vencedores, esses ficam com o poder e que lhes baste o proveito, sem direito, nunca, a exercê-lo com ignomínia perante os vencidos e a exigir-nos, perante a História, amnésia para adormecer consciências.

Os acontecimentos de Maio de 1977 foram, parece-me, um caso de cegueira ideológica ao nível do pior que o marxismo-leninismo pode levar – a via de destruição dos “diferentes”, embora irmãos sob a mesma bandeira. Com a tragédia acrescentada de o “campo de apoio do internacionalismo proletário” estar nos dois lados da barricada – soviéticos e PCP ao lado da insurreição; cubanos ao lado de Agostinho Neto. A presença e poder de fogo dos cubanos, no terreno e sem dar tempo a que Fidel se entendesse com Brejnev, salvou Neto e a sua facção do MPLA. De nada valeram os militares e as massas mobilizadas e fanatizadas pelas quimeras irredentistas pelos candidatos a bolcheviques angolanos – os puros e os duros.

Dou razão ao WR quando diz da Angola saída da vitória do marxismo-leninismo de Agostinho Neto sobre o marxismo-leninismo de Nito Alves: “ um país com singulares condições para ser um país próspero, naquele contexto geo-político, se transformou naquilo que hoje é do conhecimento geral: um território devastado pela guerra, pelo caos, pela mais extrema das misérias, a par da opulência insultuosa da riqueza de um punhado de déspotas e oportunistas.”

Mas que me permita este companheiro que lhe diga que eu penso que, com a eventual vitória do radicalismo de Nito Alves & Cª, Angola só podia, hoje, estar ainda pior, provavelmente nem sequer existiria como País Independente. É que, embora muitas vezes se resista a esta ideia, o Pior é sempre Possível. E pode estar do lado dos vencidos varridos do poder e sem darem provas provadas de como iriam exercer o poder. Fico-me pela convicção que mais marxismo-leninismo só poderia resultar em pior marxismo-leninismo.

Para mais dados e opiniões sobre a efeméride, pode consultar aqui.
publicado por João Tunes às 16:55
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