Segunda-feira, 21 de Março de 2005

AS TRÊS “MILANESAS”

(dedicado ao atleta Fabiano, a passar um momento familiar difícil - que se deseja com desenlace o melhor possível -, para compensação da promessa falhada do seu Presidente que, com mais olhos que barriga, prometeu dedicar-lhe a eliminação falhada do Inter, como se o Inter de Milão estivesse ao mesmo nível do Nacional da Madeira)

Milano-Piazza-Duomo[1].jpg

Três estimadas senhoras com hábito de blogar - talvez o sejam por serem artistas na arte de lidar com as palavras e pelo gosto de jogarem à “apanha” com a memória e os sonhos para futurar – e que me dão o prazer de me dispensarem mimos de estima, caíram-me em cima porque eu disse para aqui uma coisa qualquer que consideraram pouco abonatória para as belezas milanesas. Não era, pelo contrário. Mas elas não entenderam ou fingiram isso para inventarem zanga amiga e pretexto para uma exaltaçãozinha sentimental das suas recordações de viagem. Mas, ainda bem que assim foi.

As três estimadas senhoras estiveram em Milão em épocas diferentes e nela viveram sensações fortes. Desafiadas, dispuseram-se a aceitar o convite de alinharem as suas lembranças milanesas, cada uma no seu canto blogueiro. Cabe-me, como contumaz subaluga de escritos alheios, depositar aqui os textos que mostram olhares cruzados sobre uma mesma cidade que só é capaz de deixar emoções fortes.

1 - Contou a Guida:


“16 de Setembro de 1969. Manhã cedo, digo o último adeus a Veneza, ainda com vestígios das chuvadas da véspera. Tempo fresquito, que os meados de Setembro já anunciam o tão próximo Outono. Gabardina por cima do vestido leve, sapatos fechados (pechincha comprada em Bolonha), malas de viagem a jeito e máquina fotográfica em punho, aí vou eu abrindo caminho por Rialto até ao "vaporetto". Mais um olhar à laguna, aos velhos palácios, às "rive" e chego finalmente ao comboio que me conduzirá a Milão, última e breve etapa de uma inesquecível aventura de duas semanas, repartida entre Florença e Veneza, com as imprescindíveis escapadelas a outras cidades.
Passo ao lado mítica Verona com pena de não a poder visitar, chego à estação de Milão, onde me desembaraço rapidamente dos "extras", e aí vou eu, leve e feliz, descendo avenidas, atravessando jardins e parques, extasiada. Que diferente da nossa bonita mas ainda tão provinciana Lisboa...
Almoço rápido, talvez uma "pasta" com "pesto", o tempo é pouco para bisbilhotar tudo, um "tudo" muito relativo e limitado, que escassas cinco horas não podem dar para grandes voos.
Eis-me diante da primeira das maravilhas, que deixa esta pacóvia completamente embasbacada: as Galerias Vittorio Emanuelle! Duas ruas que se cruzam, totalmente cobertas, com lojas lindíssimas e esplanadas, tentação de uma bica, cara de certeza, mas fica para o regresso.
"Il Duomo" está além ao fundo, imponente no seu gótico flamejante, exagerado e ostentatório decerto, mas esplêndido. Fotografo de longe, a praça cheia de pombos, como todas as praças de Itália. Agora mais perto, outras fotos, à fachada, à entrada, às torres, aos pináculos, e já lá mesmo ao pé, aos detalhes. Dou a volta, espreito pormenores, outros turistas fazem o mesmo. O deslumbramento parece comum. Finalmente entro na catedral, não sem ter que escapar à acurada vigilância de um zelote que queria à viva força impingir-me um véu: nem calções, nem saias curtas, nem cabeça descoberta. Tiro o cinto, a saia desce até aos joelhos, mas lá o "trapo" na cabeça, santa paciência! Queria era ver os vitrais, as esculturas, as telas, os frescos, enfim, tudo. Com tanta gente, apesar das restrições, muita coisa fica por esmiuçar. E o tempo a escoar-se... Saio de lá maravilhada, estarrecida, completamente esmagada perante tanta grandiosidade. Urge o tal café nas Galerias.
Já numa esplanada de café, dispensável açúcar, e copo e água num jarro (impecáveis nesse serviço, os italianos!), faço contas ao tempo, ainda azamboada com o Duomo. Pois, ainda dá para espreitar o Scala, que é já do outro lado. Acho-o insignificante, apenas o valorizo pelos ininterruptos espectáculos do bel-canto, mas esse já não pude escutar.
Outra vez avenidas acima, levantar a bagagem na estação ferroviária, atravessar a praça para o terminal da Alitália, mesmo a tempo de entrar no autocarro que me leve ao aeroporto. Os olhos ainda cheios da imensa mole dourada da Catedral de Milão.
E no aeroporto, outra surpresa. Um único balcão de check-in a funcionar, horários de partida dos voos era mentira, gente a acotovelar-se ao monte. Que faço agora? Falta uma hora para o avião descolar e por este andar nem daqui a duas horas... Dois padres católicos, um trintão (um borracho, que pena!) e outro mais idoso estão perto de mim com o mesmo ar perplexo. Dirijo-me a eles, em francês, e pergunto-lhes como é que nos desembrulhamos daquela confusão. Responde-me o mais novo, também em francês tão atabalhoado como meu, que o colega está a informar-se disso. Finalmente, lá conseguimos eu e os dois padres, fazer o nosso check-in. Não sem mais um problema para mim, pois dizem-me que eu não tenho o voo confirmado. Teria que ir primeiro a Roma e só depois para Lisboa, fazendo ainda escala sabe-se lá por onde!... Esclarecido o assunto, sento-me no único lugar livre naquela malfadada sala: junto aos padres, a quem aproveito para agradecer mais uma vez a ajuda prestada. Puxo pelo meu "Tio Patinhas" em italiano, precioso auxiliar que me fora na aprendizagem da língua durante toda a estadia, e qual não é o meu espanto quando ouço os dois religiosos a falar... português! Com uma gargalhada que os deixa com o ar mais pasmado do mundo, digo-lhes que, afinal, também sou portuguesa. Acabamos todos a rir que nem uns putos, pois nem a eles tinha alguma vez acontecido coisa semelhante!”

2 – Contou a TH:

”Era Agosto em 1975, ainda não fizera um ano que eu tinha decidido caminhar sozinha, mas desta vez juntei-me a 4 amigos e lá fomos, estrada fora rumo à Grécia, onde estava destinado que não chegaríamos no meu pequeno Fiat 600, ainda por liquidar.
Saímos de Lisboa no último dia de Julho e antes de chegarmos a Milão várias estórias eu teria para vos contar se esse fosse o intuito deste post, que não é.
Só como apontamento vos digo que desde termos que fugir de um louco apaixonado que nos perseguiu de táxi pela noite dentro, das enxurradas que fez transbordar rios a assistir estupefactos à paixão emergente entre dois dos nossos companheiros…tudo era encarado com aquele desprendimento de quem acabara de readquirir a Liberdade!
Chegamos a Milão ao fim da tarde de um Domingo, Piazza D’Uomo, encantados com a alegria da praça onde crianças brincavam, mães empurravam seus carrinhos de bebés, namorados abraçados passeavam, resolvemos procurar Pensão onde descansar corpos doridos de dormidas em sacos cama ao relento, nas bermas das estradas. Eu era a única que dormia dentro do carro, muito encolhida no banco de trás, pronta para arrancar e pedir ajuda, se fosse caso disso.
Encontrada a Pensão, quisemos saber se poderíamos trazer para mais perto a viatura…
-o quê? Deixaram a “máquina” na Piazza D’Uomo???
Ainda riamos quando chegamos ao local onde aparcamos meia hora antes o Fiat-600, carregado com nossos haveres…e só encontramos o local…vazio!
Depois da queixa na polícia, o que daria um outro post hilariante, recolhemos à Pensão, sem roupa, dois de nós sem passaporte, mas convencidos ainda que na manhã seguinte iríamos encontrar o nosso único meio de transporte, como se achar um Fiat em Itália não fosse o mesmo que encontrar uma agulha em palheiro…
Ninguém dormiu direito essa noite, não que nos preocupasse o roubo do carro, não, é que a Pensão onde nos levou nossos passos toda a noite era ninho de amores vadios, múltiplos e barulhentos.
De Milão lembro-me pois de Quartel de polícia, Pensão de putas e da gare de caminho de ferro onde embarcamos no comboio para regressar à Pátria onde o ar nos trazia ainda o cheiro a cravos.”

3 – Contou a Isabella:

”Cheguei a Milão, a primeira vez, à boleia e após três semanas a apanhar fruta na Suíça. A alegria de pisar solo italiano começara logo no interior do túnel de Grand Saint Bénard, que separa o ditatorial ritmo helvético da feliz balda latina. Lembro-me que, de Martigny a Ivrea _ bifurcação da auto-estrada que, do Vale d’Aosta, segue para Turim ou Milão _ conversámos com um camionista fã de Mário Soares. Era outra Itália, a do ‘pentapartito’, numa Europa dividida.
Milão foi, pois, o ansiado regresso ao palco latino, onde as regras não são para cumprir! _ e , por isso mesmo, logo na primeira noite no albergue da juventude (Metro ‘QT.8’), negociámos com os tipos do quarto que tinha a janela ao nível do jardim, que a deixassem aberta, pois está-se mesmo a ver que íamos abreviar a noite na Festa do Unità, a decorrer no terreno em frente, só porque os italianos fechavam o albergue à meia-noite.
Este acordo construiu uma amizade que se manteve toda a década de oitenta, com o Frek, um dos rapazes do citado quarto, que, imediatamente se juntou aos três portugueses e foi com este holandês, hoje médico e investigador em Amsterdão, que brinquei aos turistas na capital da Lombardia.
Garanto-vos que não é fácil conhecer uma cidade em cima de noites mal dormidas e bem bebidas... mas lá fizemos por nos levantar antes do fechar do albergue para, em seguida, apanhar o metro para a Piazza Duomo, onde um vizinho de cama do Frek, alemão e filho de um abastado vendedor de pianos da Baviera, fez questão de nos pagar a primeira bebida na Galleria Vittorio Emanuele _ o que me pareceu um sonho. Que lugar mais bonito!
Aquele ‘Martini’ inspirou-me e foi para os meus amigos, tão espantados como divertidos, que toquei no piano de Verdi, numa das salas do Scala, “When the saints go marchin’in” _ esta já ninguém me tira!
Pôs-se o sol com a última visita do dia ao Castello Sforzesco (foto) _ dos Sforza, mecenas lombardos _ onde, enquanto um empregado punha num balde todas as moedas que os turistas tinham atirado para a fonte (então vazia e sem encanto), eu e o Frek discutimos todos os problemas que faltavam resolver no Terceiro Mundo...
Estava na hora de procurar uma pizzaria, bem longe da Via Monte Napoleone, que não trajávamos nem roupinha a condizer com os compradores da Colecção Outono/Inverno de 84 (nesse ano, entre o vermelho e o preto), nem tínhamos mais tempo a perder que, na festa dos ‘eurocomunistas’, o vinho era à borla.
No dia seguinte, após uma ida ao Museu do Cinema, pusémo-nos à boleia para Veneza (viagem que já aqui contei).”

4 – Conto eu: beijos amigos e agradecidos às três estimadas senhoras.
publicado por João Tunes às 12:04
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7 comentários:
De Joo a 22 de Março de 2005 às 14:55
Como qualquer cavalheiro diria, pois ... primeiro as senhoras! (elas que se pronunciem)


De IO a 21 de Março de 2005 às 21:34
Então, é aqui e já que anuncio que sexta-feira fui à TAP comprar a passagem Lisboa-Milão-Lisboa... isso, ao pé de quem senão delas, as herdeiras, sabe bem passar o dia de anos?....... a mais pequenita até já me telefonou a perguntar se o meu bolo são dois meninos ou uma casa... e ainda faltam quase dois meses... que tal fazermos o bolo com um menino e 4 meninas? _ beijinhos, uma tia (caviar, claro!...)lol!


De Joo a 21 de Março de 2005 às 15:22
I) Bolas, cara TH, essa memória é inox! Já corrigi a falha. Que fique com crédito de "bem mandado". II) Oh Chuinga, o post era para me "meter" com um cavalheiro que muito estimo (o meu amigo Werewolf) e saíram-me ao caminho três galfarras milanesas. E pelos vistos, já não só três porque uma quarta também saltou. III) Oh Guida, eu não conheço Milão e, por isso, alinho com gosto. Eu descubro e vocês redescobrem e servem-me de guias. Bora! IV) Oh Madalena, venha de lá esse post e em vez de três passam a "quatro milanesas". Na República da Amizade, cabe sempre mais um e mais uma. V) Abraços às quatro e ao Werewolf (que, por infelicidade, viu a sua derrota utilmente transformada em fonte de talentos).


De madalena a 21 de Março de 2005 às 14:41
Gostei de Milão, quando lá passei em 76.
Levava o meu filho a começar a andar e, atrás dos pombos desta praça, verificou-se que andava mesmo. Até corria! beijinho às meninas e ao menino


De Guida Alves a 21 de Março de 2005 às 14:25
E agora só falta irmos os 4 (João, Theo, Io e eu) à redescoberta de Milão, com o possível vigor e o encantamento que ainda nos acompanha! Beijos para os três.


De chuinga a 21 de Março de 2005 às 13:21
1ª para a Guida e a Theo: UM beijo!
2º Mas afinal o que é que tu querias dizer, João? _ uma que só vê os jogos da selecção...
3º Foi um prazer, até porque, grande coincidência, acabo de reencontrar o 3º português, que no regresso desta viagem fugiu de Económicas para o Teatro! _ haja um que não virou 'adulto'..._ GRANDE ABRAÇO ao João, IO.


De th a 21 de Março de 2005 às 12:37
"Eu sei que não me vão ligar peva mas o desafio fica feito. E se o desafio fôr ganho, desde já exara-se que ele é dedicado ao Fabiano (já que a dedicatória prometida pelo PC deu em águas de bacalhau...). Meninas, minhas queridas meninas, vale? Beijos meus às três beldades literárias"
Desafio aceite e concluido, falta a dedicatória formal...lol
beijo, th


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