Quinta-feira, 26 de Maio de 2005

PARA QUANDO O PEDIDO DE PERDÃO PELO “NACIONAL-CATOLICISMO”?

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O “nacional-catolicismo” (a aliança entre o clericalismo e as variantes de fascismos europeus) foi das piores pestes na história do Século XX. Juntou o pior da tradição da Igreja Católica, em que os “vermelhos” ocuparam os lugares de recusa ainda quentes dos judeus, na vontade e poder de conservação de privilégios (os seus e os das esmolas gordas) e de domínio sobre as almas dos desvalidos, recusando cultura, justiça e democracia. Muitas páginas faltam no fazer história do Século XX que mostrem a vergonha da forma como a Igreja Católica passou ao lado, ou se aliou, com a violência pagã, animalesca e de ódio profundo com que os pagãos fascistas se alcandoraram e conservaram os seus poderes totalitários. Foi assim na Croácia, na Hungria, na Polónia e na Roménia, nas ditaduras fascistas aliadas ao nazismo. Foi assim na França de Petain. Mais duradouramente, foram os casos de Portugal e Espanha. A Igreja já havia baqueado e levantado o braço com Hitler e com Mussolini. Depois, deu o colorido ideológico do princípio de “cruzada” aos fascismos, sobretudo às versões mais persistentes e consolidadas das pátrias peninsulares. Com maior denodo e descaramento no caso espanhol, perfilando-se num dos lados do ferro e do sangue, a que ajudaram ao paganismo do ódio, da intolerância, da capacidade de perdoar, concedendo a Franco e aos fascistas espanhóis o direito à profanação pelo uso do crucifixo e do terço.

Claro que cada momento histórico tem a sua data e as suas explicações. No caso espanhol, esquerdistas (sobretudo anarquistas) descarregaram ódios, sevícias e martírios sobre os clérigos e freiras. Foi um ódio repugnante para o qual não desculpam os muitos séculos em que a Igreja esteve ao lado da opressão e do obscurantismo castelhanos. Mas também as suas penas, mesmo os martírios, não podem desculpar a forma violenta, sanguinária e manchada de ódio com que a Igreja abençoou Franco e a matança na sua vingança, acompanhando o regime, abençoando-o, até ao fim do ditador.

No último papado, foram beatificados e beatificadas à molhada, padres e freiras que penaram à mão dos esquerdistas ímpios. Mais que um gesto de reparação de justiça, João Paulo II, pela parcialidade demonstrada (não foi beatificado um único dos muitos sacerdotes bascos fuzilados por Franco porque defenderam o seu País e o seu Povo), prolongou, quis prolongar, o selo de “Cruzada” atribuída a Franco e ao nazi-fascismo que o apoiou e lhe ganhou a guerra.

Falta agora que o Papa, a Igreja Católica através dele, peça desculpa aos espanhóis chacinados, excluídos, aprisionados, perseguidos e ostracizados, porque defenderam o seu regime legal e constitucional contra um golpe militar, a democracia contra o fascismo, a república contra o domínio dos señoritos e marqueses, preferindo os curas um regime de ódio e vingança que a Igreja apoiou, abençoou e a ele serviu, servindo-se, levando o poder das sotainas até ao obsceno (durante décadas, após a guerra terminar, para quem procurasse um emprego era pedida informação ao pároco da sua residência sobre o seu comportamento cívico, moral e religioso). E que maior simbolismo podia haver, como pedido de perdão, que abandonar esse monumento ímpio e monstruoso chamado Vale dos Caídos, uma vergonha para a humanidade, caducando-lhe a categoria de “Basílica” que João XXIII lhe atribuiu, mandando que os monges beneditinos que lhe fazem guarda e missas se mudem para um lugar decente e de fé, revogando a benção católica a esse monumento à eternidade do ódio e da vingança, permitindo que as urzes, o rosmaninho e as estevas apaguem, com o passar dos anos, essa megalomania satânica de preito à vergonha do “nacional-catolicismo”?

”A desculpa divina, como tantas vezes, durante a História, serve para blindar a consciência perante as maiores atrocidades. Franco não foi excepção, antes pelo contrário. Utilizou a Igreja espanhola como salvoconduto para os seus objectivos de eliminar o adversário, encobrindo-os debaixo de conceitos espirituais. A Igreja fez-lhe a vontade, acreditando que ela também beneficiava nos seus próprios interesses e contribuiu tenazmente de suporte moral ao franquismo. Os verdadeiros “comissários” do regime não foram os falanguistas, foram sobretudo os padres, religiosos e religiosas, devotados a praticar princípios “pedagógicos” em que a exaltação da “nova ordem” figurava como matéria essencial.”
(in “Franco y yo”, Albert Boadella, Espasa-Calpe, Madrid, 2003)

”O Estado Espanhol, consciente de que a sua unidade e grandeza assentam nos pilares da fé católica, inspiradores das suas façanhas imperiais, e desejoso de mostrar, uma vez mais e de maneira prática, a sua fiel adesão à Igreja, assim como reparar o iníqua exploração que os regimes liberais fizeram do seu património através de despejos sacrílegos, propõe-se prestar o tributo devido ao abnegado clero católico, cooperante eficaz da nossa gloriosa cruzada.”
(in entrevista de Franco, em Janeiro de 1938, ao “National Catholic Welfare Conference”)

”Senhor, aceita com piedade a oferta deste povo que em teu nome venceu com heroísmo os inimigos da verdade porque estavam cegos. Senhor Deus, em cujas mãos está todo o Direito e todo o Poder, presta-me a Tua assistência para conduzir este povo à plena liberdade do Império, para glória Tua e da Tua Igreja.”
(Franco, ao oferecer a sua “espada da vitória” ao altar-mor da Basílica de las Salesas Reales, Madrid, no Te Deum de celebração da vitória do fascismo, 20 de Maio de 1939)

”O Senhor esteja sempre contigo. Ele, de Quem procede todo Direito e todo Poder, e debaixo de cujo império estão todas as coisas, te abençoe, e continue a proteger-te, assim como o povo cujo governo te foi confiado. Dou-te a bênção em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.”
(Cardeal Primaz Isidro Gomá, em resposta a Franco, mesma cerimónia)

”Foram sacerdotes [os padres bascos fuzilados por Franco, já com a guerra terminada, por terem defendido a República e a autonomia basca] que se valeram da sua autoridade para enganar o seu rebanho, para levá-los à morte, para lutarem em união com os inimigos da fé, traidores à sua pátria, pior ainda, traidores ao seu Deus. Tiveram que responder ante a justiça humana, não como sacerdotes, mas sim como atiçadores da luta, através de um forma indigna do seu carácter sacerdotal”
(Frei Justo Pérez de Urbel, Abade do Vale dos Caídos e professor da Universidade de Madrid, referindo-se aos padres bascos fuzilados por Franco)

”Levantado o nosso coração ao Senhor, agradecemos sinceramente, com Vossa Excelência, a desejada vitória da católica Espanha. Fazemos votos para que este queridíssimo País, alcançada a paz, retome com novo vigor as suas antigas e cristãs tradições e que tão grande a fizeram. Com estes sentimentos, enviamos efusivamente a Vossa Excelência e a todo o povo espanhol a nossa apostólica bênção. Pio XII.”
(Telegrama do Papa Pio XII para Franco, 1 de Abril de 1939)
publicado por João Tunes às 18:22
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3 comentários:
De JG a 27 de Maio de 2005 às 12:26
Quem tem menos de 40 anos não sabe nada destas coisas. Excelente dar a conhecer esses excessos do fascismo. Eu tento sempre que acho oportuno denunciar o que foi Portugal na minha juventude. Ainda há dias mandei um post com uma frase de Salazar bem conhecida:- "Povo instruído é um povo infeliz". Por incrível que pareça, apareceu alguém que comentou: "Salazar disse isso? Quando e onde?" Alguém lhe deu uma resposta bem humorada. Se fosse eu e se pudesse fazê-lo, tinha-o desancado.


De IO a 27 de Maio de 2005 às 01:18
daqui a 500 anos, talvez...


De RN a 27 de Maio de 2005 às 00:48
É bom lembrar a quem ande esquecido e dar a conhecer a quem não sabe.


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