Segunda-feira, 14 de Março de 2005

EVOCAÇÕES

tarrafal1[1].jpg

No sábado passado, duas evocações de memória tiveram lugar em Lisboa – uma visita à fachada da antiga sede da PIDE na Rua António Maria Cardoso (que tencionam transformar num condomínio de luxo) e a recordação das vítimas portuguesas que penaram no Campo de Concentração do Tarrafal (Cabo Verde).

Uma e outra evocação tiveram escassas presenças e foram sobretudo participadas por idosos ou por aí próximos. O que significa que ainda há quem não esqueça mas, em termos colectivos, a relevância é pequena. A maior parte andará a fazer contas ao presente (e que contas, para grande parte) que sobra pouco para investir no futuro e para recuperar o passado.

A transformação da antiga sede da PIDE num condomínio privado e implicando a destruição do sinal mais marcante na longa repressão que este povo viveu, tem um preocupante significado – a supremacia do negócio (no caso, imobiliário) sobre a memória histórica contemporânea das marcas da tirania que nos moldou (a este povo) o carácter e o ser. A proposta de revogação desta medida e a adaptação do espaço a um Museu da Resistência, merece apoios, todos os apoios.

A evocação do Campo de Concentração do Tarrafal, espantosamente, passa mais despercebida que a evocação de Auschwitz entre nós. Como português, não deixa de me surpreender uma muito maior sensibilidade perante a máquina do holocausto que a despertada pela sua cópia salazarenta. Como se esta cópia não tivesse o mesmo estigma de perfídia e o mesmo carácter criminoso. A não ser que a dimensão, a quantidade e a técnica sejam os elementos relevantes na apreciação do crime.

E se o Tarrafal foi encerrado em 1945 no seu uso para prisioneiros portugueses, isso deveu-se ao facto de ele ser exactamente uma cópia adaptada de Auschwitz e dos outros campos nazis. O que não impediu que ele fosse reaberto nos anos sessenta e se mantivesse como campo de extermínio até 1974 (agora para prisioneiros africanos). Estes dois períodos de funcionamento do Tarrafal dão aliás uma medida do racismo fascista – o regime, os maus tratos, a aplicação de tortura e a função de liquidação física e psicológica dos prisioneiros foram muito mais violentas na “fase africana” que na “fase europeia”. Curiosamente, os próprios anti-fascistas, na sua evocação do Tarrafal, nem sempre se despegam deste contágio racista, pois é frequente ficar-se pela heroificação dos prisioneiros da “fase portuguesa”, omitindo-se, em relevo, a barbaridade que representou a sua reabertura para patriotas africanos e o seu uso como meio de aniquilação dos dirigentes dos movimentos de libertação. Mas, sabe-se, o anticolonialismo nem sempre, muito menos desde sempre, teve a mesma velocidade e profundidade de convicção que o antifascismo.

Adenda: Assino por baixo o apelo da Chuinga.
publicado por João Tunes às 12:57
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2 comentários:
De IO a 14 de Março de 2005 às 21:39
As duas um só Auschwitz da Liberdade _ agora, sim, ficou completo...


De IO a 14 de Março de 2005 às 21:30
Muito bem lembrado, o Tarrafal, versões I e II _ abraço, IO.


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