Domingo, 13 de Março de 2005

SOBRE TERRORISMO, JUSTIFICAR E EXPLICAR NÃO SÃO CUMPLICIDADES?

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Sobre o meu texto de contraditório, o Werewolf voltou à carga e detalhou o seu raciocínio de onde respingo estes nacos:

“Não podemos ficar de braços cruzados, nesta hora deve reprimir-se o terrorismo, mas em simultâneo combater as suas "causas", sobretudo impedindo que a degradação e a pobreza dos países asiáticos, africanos e americanos, vítimas do colonialismo e do racismo branco, se tornem campo de recrutamento fácil para os terroristas.”
“Faça-se um combate eficaz contra o terrorismo, mas trate-se em simultâneo dos problemas da pobreza e da marginalização no Mundo.”
“Aproximando os povos com tolerância e promovendo uma melhor distribuição da riqueza, só assim se conseguirá desmobilizar a facilidade de recrutamento dos diversos fundamentalismo e encontrar uma solução para o problema a médio ou longo prazo, não esquecendo que neste momento urge um combate eficaz aos verdadeiros terroristas, sem ocupação ilegal de países, sem generalizações estúpidas nem estigmatizações, mas com firmeza, evitando ao máximo os danos colaterais, que só dão armas aos terroristas e facilitam o seu recrutamento.”


Como se confirma, o raciocínio do Werewolf insiste no bem conhecido encadeado de causa-efeito – É o imperialismo (nas suas perversões várias, sobretudo na injusta distribuição da riqueza) que gera descontentamentos e desesperos que são a base de recrutamento para as organizações terroristas. Daqui só se pode extrair que o responsável último e principal pelo terrorismo é o imperialismo (= States, sem dúvida). Logo, o criminoso maior de Atocha e Alcalá de Enares foi mais George Bush que Bin Laden. Porque, sem George Bush, Bin Laden andaria por aí a querer recrutar malta mas encontrava só povos felizes e não haveria assassinos disponíveis para matar inocentes à bomba. Mas isto é uma falsidade que tem de ser tão combatida como combatido deve ser o terrorismo.

Julgo que a história e a memória do passado desmentem qb este raciocínio de justificação (que, no meu entender, é perigoso, repito: bem perigoso). De há muito que a história demonstrou que o terrorismo é a mais ineficaz das armas políticas (mesmo quando, ao contrário de agora, era dirigida contra poderosos e não contra inocentes) – gera mais anti-corpos sociais que mobilização, apura o aparelho repressivo, faz regredir os ideais de progresso, indignifica os actores de mudança porque é evidente que a cobardia do assassinato não é recomendação para resolver o que seja além de anúncio de tirania. Nos tempos modernos, na passagem do terrorismo de alvos selectivos de agentes de opressão para o efeito de terror pela matança de inocentes em massa e em espectáculo de imolação, o terrorismo, falido como arma política, mostrou que é sobretudo, ou apenas, a voz da cobardia, do fanatismo, da patologia de assassinos. Assim, o terrorismo nunca é expressão de indignação perante injustiças, não corrige nada, reproduz mecanismos de medo que retardam qualquer correcção e qualquer acto de justiça. Nisso, o terrorismo é igual ou pior que a gula dos ricaços cada vez mais ricaços.

Madrid foi obra de fundamentalismo islâmico. Podia ter sido de outro extremismo mas veio dessa fornada. E onde é que Bin Laden e outros recrutam e se reproduzem? Nas massas esfomeadas e nos deserdados da terra e do pão, nas mulheres que se queiram emancipar, nos operários a clamarem por mais justiça social? Nem pensar. O fundamentalismo vive e floresce onde sociedades muçulmanas entram pela laicidade e pelo progresso. Na Argélia, degolam preferencialmente professores porque encaram a escola como um obstáculo à manutenção do ancestral. No Egipto, os fundamentalistas que perseguem turistas estrangeiros, dançarinas da dança do ventre e mulheres sem véu, são nados e criados nas Universidades. Em Marrocos e na Indonésia, os fundamentalistas atacam sobretudo a imagem desinibida das turistas estrangeiras que ousam banhar-se de bikini em vez de burka enfiada. No Afeganistão, os tallibans são (eram?) a Idade Média, preferindo o negócio da cocaína, a ditadura das madrassas e a burka ao progresso social.

No dia em que houver mais equilíbrio social com o Terceiro Mundo, as bombas estarão mais perto da Campanhã e de Santa Apolónia. Tudo o que se faça, devendo fazer-se, para equilibrar, diminuindo a fome, a pobreza, a humilhação, neste mundo desigual, vai excitar e enraivecer Bin Laden e os seus apaniguados e émulos. E então vamos ter mais bombas e mais perdas de inocentes. Porque qualquer progresso segrega marginais e a excitação dos paranóicos na vontade de matar. Não podemos, caro Werewolf, esquecer que vamos pagar este preço pela resolução dos desequilíbrios que te preocupam e me preocupam. O terrorismo combate-se com fogo sobre os assassinos. A sua base social e psicológica é a vontade de matar que se alegra com a morte de inocentes.

Não justifiques, caro Werewolf, aquilo que, com o progresso, o progresso que justamente defendes, o progresso de todos os povos, vai aproximar as bombas de ti e de mim, dos teus e dos meus. Sabes, é que Atocha não é assim tão longe de Campanhã. Nem da Gare Oriente. Pois não. É um pulo de poucas horas. E o que defendemos de bom e justo excita os assassinos. Por isso, defendo que mais progresso exige mais fogo sobre os assassinos. Fogo neles, a única defesa para continuarmos para aqui a defender as nossas ideias, umas vezes convergentes e outras nem tanto. Mas querendo, cada um à sua maneira, mais progresso e menos matança de inocentes. Sabendo que mais progresso tem, infelizmente, o preço de mais inocentes a serem desfeitos durante o ritual banal de irem à escola ou ao emprego. Porque ir à escola ou ao emprego excita a sede de sangue dos assassinos, homens vindos do escuro do ressentimento que, antes de ser social ou político, é perigosa patologia - a do prazer no sangue exposto na TV e a jorrar de corpos desfeitos, uma patologia de magarefe degenerado. Esquecer isto é, no mínimo, uma injustiça para com os 191 cidadãos esfacelados em Atocha numa manhã de um dia 11 de Março.
publicado por João Tunes às 15:42
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1 comentário:
De Werewolf a 13 de Março de 2005 às 16:32
Claro João, mas penso que estás a fazer afirmações que não correspondem exactamente ao que afirmo nem ao que penso sobre o assunto em questão. Penso que já te expliquei que é urgente combater os terroristas, mas também é necessário combater as causa da exclusão social, nem sempre essa exclusão social degenera em terrorismo, mas frequentemente degenera em marginalidade, em assassinatos, em crimes, mas também aqui não é só com a repressão que se solucionam estes problemas, é preciso também combatê-los a montante. Quanto ao discurso dos, ou do imperialismo, vulgo "States", desculpa lá mas é um bocado estafado. Não tenho dúvidas de que os Estados Unidos têm preocupações hegemónicas em relação ao Mundo, como não tenho dúvidas que quase 80 a 90% da riqueza produzida no Mundo está nas mãos dos americanos e escamotear esta realidade é tapar o Sol com a peneira. Não sou cobarde, nem tenho medo dos terroristas, só acho que o combare ao terrorismo e à exclusão não se faz só com repressão.
Sei perfeitamente que os actos de terrorismo a que nos referimos são obra do fundamentalismo islâmico. Não tenho qualquer dúvida, por isso não pretendo encontrar justificações, somente prevenir que os centros em que são recrutados os terroristas são, na maior parte dos casos, obra da pretensa superioridade ocidental em relação a esses povos, o que facilita a obra dos fundamentalistas. Não pessoalizo questões, pelo contrário, tento distanciar-me para fazer uma análise menos sujeita à minhas próprias opções políticas e religiosas, que conheces.
Não desculpo nem encontro justificações para o terrorismo, apenas tentei mostrar que, na minha opinião, reprimir os terroristas não é suficiente, é preciso retirar-lhes campo de manobra e de recrutamneto e, se com isso, tornarmos o Mundo melhor, então ainda bem.


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