Segunda-feira, 7 de Março de 2005

FALANDO SOBRE MULHERES

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1. Conceição Matos foi uma barreirense adoptiva como eu fui. Conheci-lhe o sorriso afectivo antes do 25 de Abril. Primeiro, porque dois barreirenses (de gema ou por adopção) topam-se à légua porque há qualquer coisa de cúmplice que nos fica na alma para o resto da vida. Depois porque, entre duas clandestinidades, ela foi frequentadora do ABC Cine Clube de Lisboa. Aí nos víamos nas esperas das sessões a falar de cinema. Ganhámos estima. É difícil não ganhar estima pelo seu sorriso de mulher simples e afectiva. Para mais, eu sabia que estava com uma das mulheres portuguesas que mais humilhada tinha sido, na sua condição de mulher e de antifascista, sobretudo na sua condição de mulher, às mãos dos pides. Mas o seu sorriso era e é um daqueles actos espontâneos que saem de dentro, não esperando holofotes, mas apenas calor humano. Anos a fio nos encontrámos noutros sítios onde se cruzaram projectos comuns e os nossos sorrisos sempre a encontrarem-se. Melhor dizendo, ela a sorrir-se e a fazer-me sorrir. Porque eu sou de sorriso difícil mas não resisto a uma provocação que o mereça.

2. Os descaminhos levam ao afastamento. Os meus projectos e os de Conceição Matos desalinharam-se. É a vida. Ela manteve-se na mesmíssima razão de sempre desde que adquiriu consciência de operária de vanguarda. Eu tive de passar ao lado de um projecto que tinha dentro as melhores e as piores pessoas que conheci até hoje. Um alívio por deixar de ter vista sobre as piores mas uma ausência dolorosa por deixar de ter à beira as melhores - as mais generosas e fraternas. Uma entre as perdas foi deixar de contar com a companhia do sorriso da Conceição Matos. Preparei-me e vacinei-me para os olhares desviados dos que não se perdem com as folhas secas que caíram da árvore. Com honrosas excepções, como acontece com todas as regras. Mas, como dizia um outro, não há machado que nos corte o pensamento. E a liberdade de olhar e ver, acrescento eu.

3. Há uns dias atrás, calhou encontrar a Conceição Matos num encontro casual em sítio comum para pausa de café. Fiquei curioso em saber se a perda do sorriso dela entrava na minha contabilidade de mudança. Qual quê. O sorriso, tão meu conhecido, voltou a iluminar-se e eu paguei-lhe na mesma moeda. Afinal, na humanidade de sorrir, nem ela nem eu mudámos. Que essa sobra não se perca.

4. Voltei a encontrar a Conceição Matos ontem, através do Público. E li:

”Em 1965, depois de 17 dias de isolamento, em Caxias, Conceição foi conduzida para a António Maria Cardoso, onde a aguardavam um grupo de agentes. "Daqui só sai para a morgue ou para o Júlio de Matos. Não sai daqui ninguém sem confessar tudo", disseram-lhe, antes de a avisarem de que enquanto não falasse não poderia ir à casa de banho.
Conceição nunca imaginou pronunciar sequer o seu nome quando fosse interrogada - "nunca me passou pela cabeça [falar]", conta -, mas "não esperava ser submetida" a este tipo de torturas. As horas passavam, demoradas. As perguntas sucediam-se, confrontando-se sempre com a mudez de Conceição: "Em primeiro lugar estava a causa, o amor ao partido, depois questionava-me o que é que valia eu deixar de sofrer para os outros sofrerem."
Agachou-se a um canto da sala para urinar. Os agentes dirigiram-se a ela, despiram-na e ordenaram que limpasse o chão com a sua roupa. Ela recusou e foram eles quem tiveram de "ensopar os excrementos e a urina", contou no depoimento incluído no livro As Mulheres Portuguesas na Resistência, de Rose Nery Nobre de Melo (Lisboa, Seara Nova, 1975).
Conceição tinha sobre o corpo somente uma combinação. Uma agente, Mariette, entrou na sala: "Tenho vergonha de ser mulher", disse, olhando para ela. A tensão e a pressão psicológica a que estava submetida provocou-lhe uma menstruação extemporânea. Ao terceiro dia do interrogatório, ininterrupto, Conceição começou a sofrer alucinações - "Via bichos nas paredes e estas moviam-se" - e não controlava as gargalhadas quando algum dos agentes lhe dirigia a palavra.
Fizeram-na regressar a Caxias. Mas durante pouco tempo. Três dias depois, bastante debilitada, Conceição foi novamente transportada para o edifício da António Maria Cardoso. Desta vez, para sofrer um dos momentos mais atrozes e humilhantes da sua detenção. "Antes de ser presa sabia quais os métodos que eram utilizados, mas não esperava ser submetida àquele tipo de tortura."
Encaminharam-na para a sala onde havia estado poucos dias antes e à sua espera estava já Madalena, à época "uma das agentes mais temidas" pelos presos. À primeira recusa de Conceição em identificar-se e em revelar informações sobre o partido, Madalena disse de imediato: "Então vamos começar com o espectáculo." Abriu a porta, deixou entrar uma dezena de homens, entre agentes e inspectores da PIDE, e começou a despi-la. "Fala ou não, sua puta?!", gritou-lhe. Conceição ficou nua. Ainda tentou esconder-se atrás de uma mesa, mas Madalena agarrou-a e empurrou-a para junto dos homens que se encontravam na sala. "Nessa altura, lembrei-me de um livro, Arco-Íris [da autora russa Wanda Wassilewska, publicado em 1945], e de uma personagem, uma jovem mulher grávida que é abandonada nua no meio da neve. Essa imagem deu-me forças, procurava força em alguma coisa, mas eu não estava nada à espera que me fizessem aquilo..."
Cercada por aqueles homens, começou a contar, um a um, os "pides". Madalena voltou à carga, esbofeteando e pontapeando Conceição. Que, neste momento, gritava com todas as suas forças contra os seus carrascos, ao mesmo tempo que soltava gargallhadas. Ria, ria, ria. "Ia mais ou menos preparada, quanto se pode ir para a tortura..." "Tens que chorar! Eu quero que chores", berrava Madalena. E continuava a espancá-la. Até que, sem dar por isso, Conceição começou a chorar.
O tormento não se quedou aqui. Tentaram mantê-la de pé, vestiram-na e mandaram entrar um "pide" que trazia consigo uma máquina fotográfica. "Julguei que ia morrer ali...", confessa, lembrando que o agente disse então: "Já está vestida? Que pena, eu que vinha para a fotografar nua. Olha, paciência, vou fotografa-la, assim mesmo." Queriam fotografar-lhe o rosto, mas Conceição não conseguia levantar a cabeça. Solução: o agente "conhecido como Serra" dava-lhe socos no queixo e impedia que ela caísse da cadeira. Ela já não estava ali.
Alguém entrou na sala com um papel e ordenou-lhe que assinasse. Negou duas vezes. À terceira, o não ficou-lhe preso na garganta. Do resto desse dia, recorda somente ter ouvido alguém cantar o "treze de Maio". "Foi isto que levou a que deixasse de acreditar."


E li mais sobre ela aqui.

5. Conceição de Matos mantém o sorriso de sempre. Garanto. O sorriso de mulher simples que pagou preço alto por dizer não ao fascismo. Com juros acrescentados de ódio fascista por ser mulher. E eu, para aqui, por aqui, feliz por merecer-lhe o sorriso. E repetindo, para os meus botões, que ainda gostaria de dar bofetadas nos sorrisos, ou esgares, da Mariette e da Madalena. Porque existiram (talvez existam ainda) mulheres neste País que não mereceram pertencer ao mesmo género da Conceição Matos.
publicado por João Tunes às 14:49
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