Quarta-feira, 25 de Maio de 2005

PUNKS AO BARULHO (2)

A Helena comentou, com as suas habituais simpatia, argúcia e energia, o meu post anterior com o mesmo título (ver na caixa de comentários). Uma oportunidade a não desperdiçar para continuarmos a conversa.

Bom, caríssima Helena, resolvidos os “problemas” com as salsichas, os punks e os turcos, o que resta como fio de conversa? O essencial, julgo. Que não tem rigorosamente nada a ver com chamar isto ou aquilo que isto aqui, como o seu blogue, não são lojas de etiquetas autocolantes.

Entendo e partilho a sua preocupação pelo crescimento de comportamentos violentos de grupos com sinais de intolerância e de exclusão. É um problema na Alemanha, é um problema em Portugal, é um problema um pouco por todo o lado. A violência está a crescer e a organizar-se em bandos com criminalidade exposta e que procura concentrar os alvos nos níveis mais indefesos da sociedade – crianças, mulheres, idosos, imigrantes, diferentes. O alastrar desta violência e a sua procura da impunidade é, concordo, um problema gravíssimo de cidadania e da democracia. Porque nos torna indefesos e inseguros, logo cidadãos diminuídos. Ao mesmo tempo que nos exige maior coragem cívica e física quando confrontados com os comportamentos violentos e inadmissíveis (por exemplo: no caso que narrou num seu excelente post). Porque aumenta a paranóia securitária com que a Direita procura contabilizar, demagogicamente, o aumento de insegurança. Porque, mais inseguros, tendemos a procurar catalogar e generalizar os nossos anátemas para com grupos de desconfiança, os nossos diferentes, tornando-nos nós próprios mais desconfiados e mais intolerantes. Os violentos à margem da vida democrática além do mal que fazem pelas suas mãos e pelas suas mentes sujas, corroendo a vida cívica e democrática, corroem-nos também a nós ao tornar-nos mais irritados, mais impacientes, menos justos, menos democráticos.

Como lidar com esta nova forma de violência, esta delinquência organizada recrutada em adolescentes de má adolescência ou não adolescentes com adolescência retardada? Estudar-lhe as causas e prevenir, evidentemente. Mas para a violência à solta, à explícita que ataca as camadas mais vulneráreis, a questão, em termos imediatos, é uma questão de polícia. Não de mais polícia, entenda-se. Não de um polícia em cada esquina e ao lado de cada um de nós. Um estado policial ou policiado seria uma sociedade irrespirável, imprópria para viver. Mas as polícias, falando das polícias dos estados democráticos, pesem embora os esforços visíveis de adaptação, deixaram-se ultrapassar, em técnica, em meios e em cultura de organização, pela evolução da delinquência. Quanto à delinquência contra o património, como na lide com as micro-organizações de carácter terrorista, racista, xenófobo, nacionalista, neo-nazi ou neo-estalinista. No meu entender, isto exige uma sofisticação e firmeza que tornem as polícias mais eficientes sem ofender direitos de cidadania e de defesa como pessoa humana. E exige uma outra atitude de cada um de nós, como cidadãos que nos queremos ver melhor defendidos, perante uma polícia melhor e mais eficiente. E a Helena saberá tão bem quanto eu que o normal num cidadão é querer um polícia ao seu lado quando dele precisa mas reprovar, por preconceito anti-policial, a intervenção repressiva quando ela ocorre, prolongando assim um ambivalência de atitude que retarda a resolução do velho trinómio cidadão-polícia-delinquente.

Dou-lhe um exemplo recente, ocorrido em Portugal e na nossa segunda cidade (o meu estimadíssimo Porto). É admissível que um mini-grupo de pertença a uma convicção (no caso, uma identidade clubista) declare a principal Avenida da cidade como espaço de “propriedade única” de sua exaltação (mesmo quando não ganha) e o declare “espaço interdito” para que diferentes (no caso, rivais) ali celebrem uma sua vitória desportiva? Que, tendo antecedido a ocupação e a exclusão, de um comunicado público de ameaça, mesmo assim a violência se tenha verificado com agressões físicas e queima de símbolos? Que a polícia só tenha intervido para separar os bandos, após a ocorrência dos confrontos? Sabia-se o que ia acontecer e não se preveniu. Porquê? Julgo que as explicações se encontrem não na pertença dos “exclusivos” (obviamente que a claque delinquente é uma parte mínima dos adeptos do emblema utilizado) mas porque dominou um sentimento de expectativa e de impunidade. Expectativa porque se admitiu que os delinquentes eram suficientemente ameaçadores para afugentar os rivais (primado da força). Impunidade confirmada depois quando o Presidente do Clube “justificou” os “seus delinquentes” (primado da ideologia da exclusão e do ressentimento). Talvez também porque a PSP do Porto seja mais portista que portuense ou portuguesa (primado das cumplicidades políticas regionais). Haverão casos mais graves, muito mais graves, mas não deixa de ser uma tristeza a merecer uma reflexão.

Finalmente (isto vai comprido para burro), algumas breves notas de reflexão sobre algumas formas que considero infelizes (ia dizer perigosas, mas evito por temer que soe a exagero agressivo) nos reflexos defensivos face aos comportamentos desviantes e delinquentes ou potencialmente delinquentes. E, se a Helena me dá licença, vou inspirar-me nos seus textos:

- Ainda sobre os punks de Weimar ou conotados como tal: Há ou não uma marca de rejeição segregadora, embora involuntária, quando os refere como “Andam por aí com o cabelo feito crista eriçada, as correntes, as botarronas”? Esses sinais exteriores de “diferença” (o penteado, as correntes e as botas) irritam-na porquê? Seriam melhores, mais decentes e mais agradáveis (estética à parte, é claro) se usassem outro penteado e outro vestuário? Por exemplo, turbante eles e véu na cara no caso delas? E se outros cidadãos se lembram de embirrar com turbantes e com véus? Ou com mulheres de calças e braços descobertos? Ou com homens barbudos?

- Dá uma prova de assimilação e bom comportamento aos “ciganos alemães”, ao dizer deles: “Nunca vi aqui ciganos itinerantes”. Ora todos sabemos, os ciganos chegaram à Europa por serem nómadas. O nomadismo é uma marca fortíssima da origem e raízes ciganas. A sedentarização é um processo longo, tão mais longo quanto mais lento é o processo da sua aceitação e integração. Por outro lado, é sabido, os ciganos têm especial apetência pela prática de ocupação de sobrevivência através do comércio ambulante. Mas os ciganos não são os únicos nómadas. Ninguém critica, por exemplo, os artistas de circo (onde os ciganos não dominam) porque andam sempre de casa às costas. Ser itinerante não é crime, apenas é diferentes dos nómadas, tantas vezes tristes por não itinerarem um pouquinho.

- Concordo consigo quando diz “Mas gostava de ter o nome certo para usar nesta história. Dizer apenas "três rapazes, uma mulher" é escamotear a parte mais importante da questão.” De facto, um mulher agredida é mais (no caso, menos) que uma mulher, três delinquentes são mais (no caso, também menos) que três rapazes. É isso: três agressores (no caso e como costume: cobardes) e uma agredida. Eles a merecerem repúdio e castigo, ela a merecer maior protecção e mais coragem dos seus concidadãos e das autoridades na sua defesa.

Nota: A Helena não se deu conta mas no post anterior tentei ir pela ironia, com umas chalaças pelo meio, para amenizar uma interessante conversa sobre um assunto bem sério e bem preocupante. Pela sua reacção, o resultado foi um desastre. Aceito que, ao querer ir pela ironia, provocatória mas amiga, saíu disparate completo. Pior, desajustado perante o tema. E já não é a primeira vez que meto a pata na poça. Fique registado, para além do reconhecimento da inépcia, que não pretendi colar etiquetas do quer que fosse, parametrizando comportamentos, posições ou opiniões de outrém. Mudei de tom neste post. Talvez ainda vá a tempo de me limpar da borrada anterior. É que sou um homem de esperança. Além do velho sonho estético de usar o cabelo à punk, ainda não desisti de conseguir atingir a nirvana do socialmente correcto.
publicado por João Tunes às 12:37
link do post | comentar | favorito
|
5 comentários:
De Helena a 26 de Maio de 2005 às 09:05
Lutz,
não seja por isso! Prefere Frankfurter, Bockwurst ou Thüringer? (estas últimas são mais complicadas: tenho de voar para Lisboa, e telefonar-lhe para começar a preparar as brasas antes do avião descolar). Agora só falta concluir que as desavenças bloguísticas contribuem para aumentar a taxa média de obesidade nacional...


De Lutz a 25 de Maio de 2005 às 23:14
Realmente, só me resta admiração para a capacidade do João de arranjar "desavenças" tão ferteis!


De Helena a 25 de Maio de 2005 às 21:29
Sai um abraço e um carregamento de salsichas!
:-)


De Joo a 25 de Maio de 2005 às 14:57
Confesso sim, Helena. Isso e muito pior. E a Helena ia ralhar-me. E eu a corrigir-me. Estamos sempre a aprender e não aprendemos tudo sózinhos. Um abraço (se a ele não perdi direito).


De Helena a 25 de Maio de 2005 às 14:31
João,
agora brinco eu: se você morasse numa cidade pequenina, com dezenas de padres espalhados pelas praças, cantando aleluias e exortando as pessoas à conversão, também não lhe daria para uma frase do género "andam por aí com as suas batinas e as suas preces"?
-- Não é a roupa que me incomoda, mas o que lhe anda associado.
-- Quanto ao resto, por favor tenha paciência, que de momento não tenho tempo para responder a um texto tão longo e tão rico.


Comentar post

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Setembro 2007

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30


.posts recentes

. NOVO POISO

. SOBRE A EDUCAÇÃO TESTEMUN...

. UM ÁS DO CASTRISMO

. SOBRE A EDUCAÇÃO TESTEMUN...

. SOBRE A EDUCAÇÃO TESTEMUN...

. ENTÃO, O QUE TENS FEITO ?

. O QUE TEM DE SER A EUROPA...

. O QUE TEM DE SER A EUROPA...

. O QUE TEM DE SER A EUROPA...

. QUE FORÇA É ESSA?

.arquivos

. Setembro 2007

. Junho 2005

. Maio 2005

. Abril 2005

. Março 2005

. Fevereiro 2005

blogs SAPO

.subscrever feeds