Quarta-feira, 2 de Março de 2005

PAPA EM CINCO

vatic.jpg

Um - No Barnabé (só podia ser).

Dois - A indignação do Lutz.

Três: O meu comentário ao Lutz:
Caro Lutz, sobre a publicidade que faz ao Barnabé, não comento. Porque navego longe dessa praia. Mas, pela consideração que lhe tenho, não posso deixar de comentar a sua tirada: "Relativamente à exibição, não vejo nenhuma razão para a sua queixa. Não precisa de assistir ao espectáculo, se não quiser. E relativamente a instrumentalização, ainda menos. Se é verdade que o Papa está a fazer com isso his point, devemos lembrar que está a fazê-lo com toda a legitimidade e em coerência total com aquilo que pregou e representou toda a sua vida. Daí, a última coisa de que pode ser acusado neste caso, é hipocrisia."
Mas como assim? Fazer zapping perante a mais velha ditadura da Europa? Não indignar perante a encenação da decrepitude de uma pessoa para contabilizar santidade de martírio a legitimar o próximo ditador do Vaticano que vai ocupar o cadeirão do papa polaco? Uma ditadura que alimenta o embuste de Fátima?
O barnabé Nuno foi de facto de mau gosto (e não vou perdoar ao Lutz ter-me levado a lê-lo). Sobretudo nos termos. Mas, mil vez pior que ele, e antes, foi a corja cardinalícia vaticanesca que expõe o sofrimento de um velho, sem pudor nem respeito. Aquilo é mera ostentação de poder, afirmando-o acima da contingência da vida. Ou seja, uma ditadura acima dos vivos, explorando sentimentos de desespero na luta da vida contra a morte como afirmação de domínio espiritual para com a fragilidade humana perante a dor e a velhice.
Só perdoo àqueles cardeais safados quando, por purgatório, os vir todos a escrever no Barnabé e a votarem no Louçã. Até lá, o Nuno do Barnabé é apenas um cardeal.
Abraço.


Quatro: Respondeu o Lutz:
Caro João, Um dos comentadores ao post em questão lembrou a semelhança das mortes lentas e públicas de outros ditadores, como as de Estaline ou Franco, e concluiu que isso seria próprio de ditaduras geriátricas. A comparação é irrefutável, mas penso que há algumas diferenças. Acredito mesmo que quem decidiu fazer da sua morte este "public statement" é o próprio Papa e que ele não é só um objecto duma encenação maquiavélica dos seus cardeais. E também penso que o espectáculo é genuíno, ou seja, é mesmo sobre o sofrimento e a morte, apesar de também querer capitalizar politicamente a sua "santidade". Não nutro, como o João deve calcular, nenhuma simpatia pela mais antiga ditadura de Europa, que é o Vaticano, e incomoda-me muito que até nas nossas democracias de hoje uma estrutura tão autoritária e antidemocrática como a Igreja Católica tem ainda tanto crédito. Mas em relação ao assunto do post do Barnabé, a exibição do sofrimento, este aspecto não me parece muito relevante.

Cinco: Insisto eu:
Caro Lutz, são insondáveis os mistérios dos bastidores das ditaduras. Pela contumácia, as vontades dos ditadores confundem-se com as da sua corte, por vezes com a da própria guarda pretoriana. Tendem para as irmandades perfeitas, não em solidariedade, menos ainda em fraternidade, mas em dinâmica de sobrevivência de domínio. A corte precisa do ditador para sobreviver, o ditador necessita da corte para o mesmo fim. Este sistema de vasos comunicantes em teimosias, que sabe não serem legítimas, gera a paranóia. Por vezes, muitas vezes, a esquizofrenia. Se derivares para o caso cubano, quem vai saber o que prevalece hoje entre as mentes canalhas e doentes de Fidel e de Raul (irá demorar décadas apurar, tentar apurar, se Raul foi o alter ego de Fidel ou vice-versa, ou seja, se Cuba foi dominada por Fidel com influência de Raul ou por Raul através de Fidel, embora se saiba, há muito, que houve a “impossibilidade” de o poder ter sido exercido de modo continuado e perverso através de Che ou de Cienfuegos, o último terá sido liquidado pelos seus, o primeiro foi mandado sacrificar-se para longe)? Certo é que o futuro da ditadura vaticanesca está nos cardeais, sobretudo entre os sucessórios. Tudo o que João Paulo II faça para santificar o trono é um valor de herança deixada à ditadura. São eles, os cardeais, os beneficiários deste exibicionismo de sacrifício, genuíno ou não. Porque o poder dos cardeais está na continuidade da ditadura. Assim, o próximo papa, quando se sentar no trono, vai-o encontrar já aquecido pela santidade do antecessor. Porque, meu caro, garanto que a história dos Bórgias não foi sonho meu. E quem tem capacidade de sondar o poder de influência e indução sobre um ser humanamente diminuído? Sei do que falo, não porque tenha acesso a gente de mando mas porque lido, em afectos, com velhos muito velhos e muito meus queridos e todos os dias tenho de treinar a contenção por respeito para não chantagear absolutamente nada a partir de um gesto de ternura que para mim não custa nada mas a eles lhes vale mais que oiro. Eu guio-me, em responsabilização, por uma lógica pragmática, que pode ser redutora, de analisar o quê interessa a quem. O amigo Lutz prefere iluminar a exposição do sacrifício papal através da identificação de uma vontade autónoma. Queira ou não, está a acender uma velinha em mais uma beatificação. Eu prefiro a análise política do fenómeno. Embora alinhasse com o Lutz se vislumbrasse que a seguir a João Paulo II, Vaticano passaria de ditadura a democracia. Não adivinhando isso nas estrelas, quando assisto ao filme penso em quem ele serve, continuando a servir. Assim, independentemente da vontade (até da bondade e das taras) de Woitjila, eu sei que os cardeais não dormem. E, hoje, o poder efectivo já é deles. Será com eles que devo pelejar, não por serem católicos mas por serem ditadores, respeitando o homem Woitjila na medida em que ele mo permitir. Abraço.
publicado por João Tunes às 00:25
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1 comentário:
De Lutz a 2 de Março de 2005 às 01:21
Caro João,
Um dos comentadores ao post em questão lembro a semelhança das mortes lentes e públicas de outros ditadores, como as de Estaline ou Franco, e concluiu que isso seria próprio de ditaduras geriátricas.
A comparação é irrefutável, mas penso que há algumas diferenças. Acredito mesmo que quem decidiu fazer da sua morte este "public statement" é o próprio Papa e que ele não é só um objecto duma encenação maquiavelica dos seus cardeais. E tambem penso que o espectáculo é genuino, ou seja, é mesmo sobre o sofrimento e a morte, apesar de também querer capitalizar politicamente a sua "santidade".
Não nutro, como o João deve calcular, nenhuma simpatia pela mais antiga ditadura de Europa, que é o Vaticano, e incomoda-me muito que até nas nossas democracias de hoje uma estrutura tão autoritária e antidemocrática como a Igraja Catóilica tem ainda tanto crédito.
Mas em relação ao assunto do post do Barnabé, a exibição do sofrimento, este aspecto não me parece muito relevante.


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