Domingo, 27 de Fevereiro de 2005

EGAS MONIZ

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Egas Moniz, como cientista e como cidadão, foi uma das celebridades que Salazar abafou, estrangulando-o para baixo do tapete dos silêncios que ele governava desde São Bento. Porque Egas Moniz tinha um espírito que sempre navegou fora das águas do fascismo (e fora ministro durante a I República!).

Lembro-me de ter ouvido, quando rapazito, pelas conversas caídas das mesas dos adultos nos cafés do Barreiro, como é que o ditador tinha comentado a atribuição a Egas Moniz do primeiro Nobel a um português – o Prémio Nobel da Medicina de 1949 (que ele ganhou ex-aequo com outro cientista): - Então já temos um Meio Prémio Nobel. Nada mau! E ordens foram dadas à censura para que a consagração não tivesse eco.

Certo é que o património da obra de Egas Moniz, mesmo com tantos anos de democracia em cima, ficou sempre com a marca pegada de alguma sarna de ostracismo. Quando Salazar decidia o que fosse, era para valer e para durar. E a marca infernal do seu índex foi qualquer coisa que pegou nas nossas almas lusas, como se fossem riscos feitos com ferro aquecido no fogo das brasas ainda quentes que sobraram da Inquisição. O homem sabia mesmo do ofício da separação entre lembrar e esquecer.

Porque me lembro agora das conversas escutadas em garoto pelos cafés do Barreiro e que respingavam revoltas susurradas contra o opróbrio que Salazar lançou sobre o nosso primeiro Nobel? Porque, exactamente a partir do Barreiro, um investigador (que, às vezes é meu estimado polemista sobre as contabilidades das coisas de esquerda) resolveu abrir um blogue dedicado a Egas Moniz. Para quem não queira perder a memória das nossas poucas grandezas acumuladas, aconselho que o visite.
publicado por João Tunes às 16:58
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4 comentários:
De Joo a 28 de Fevereiro de 2005 às 22:17
Não percebi nada sobre onde está a discordância. De qualquer modo, fica o testemunho para recolha do Manuel Correia. Abraço.


De Marco Oliveira a 28 de Fevereiro de 2005 às 17:00
João: hoje vou discordar de ti. Eu tenho outra imagem do Egas Moniz.
O meu avô era médico e o meu bisavô (que era monárquico) tinha entrado depressao após a implantação da república; esteve a ser tratado pelo Egas Moniz.
Mas o meu bisavo acabou por se suicidar. Tempos mais tarde o meu avô encontrou o Egas Moniz e contou-lhe o sucedido. O Egas Moniz com a maior das naturalidades disse-lhe que já estava à espera disso.
Ele esperava isso mas não foi capaz de avisar o meu avô (que era médico!) da possibilidade desse desfecho.
É assim, meu caro João. Por vezes esses herois da vida pública por vezes têm pés de barro.


De Joo a 27 de Fevereiro de 2005 às 22:46
Ora bem, caro Manuel Correia. Trabalho emérito é sempre mostrar o barro que faz parte da ossatura do mito. Sei do que falas e onde queres chegar. Venham as revelações. Que o homem fique exposto em todas as vertentes mas nunca silenciado. Abraço.


De Manuel Correia a 27 de Fevereiro de 2005 às 20:15
João Tunes,
Agradeço desveladamente a referência. És de uma fraternidade bloguística inexcedível. Tocaram-me muito as tuas palavras porque, tal como tu, ouvi falar do Egas Moniz, pela primeira vez, tb no Barreiro, e em termos muito semelhantes aos que descreves. Impressionou-me tanto que, muitos anos mais tarde, decidi estudá-lo. Sentia que lhe devia essa homenagem. Descobri então que, de cambulhada com outras noções gloriosas que apreendi nesses tempos, que a apropriação da imagem, do exemplo de cientista nobelizado e a sua mitificação não tinham muito a ver com a história dos homens nos seus tempos. Bom. Já estou a falar de mais... Mas digo-te que tem sido um cortejo de surpresas.
Obrigado uma vez mais.
Espero poder contar contigo para estes bate-papos que nos levarão à ditadura do Sidónio e à feição politicamente conservadora do nosso político cientista.
Um abraço


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