Domingo, 27 de Fevereiro de 2005

Eu não sou ucraniano!

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Não sou ucraniano mas gosto de “roubar” bons textos. Nem sempre, apenas uma ou outra vez como exemplo. Não, não faço plágio, porque fazer isso acho que é arte feia. Quando copio, faço-o como reconhecimento de talento alheio. Quando muito, com um tributo que mete tempero de inveja (que é “mal português” segundo o José Gil, assim me absolvendo, diluindo-me no meu povo).

Dizer não ser ucraniano e confessar gosto por gamanço é, a modos, uma frase feia a xeno-transpirar. Pois é. É mesmo. Mas eu gosto de mostrar as mazelas das minhas imperfeições. É através delas que eu me construo na minha longa caminhada para, um dia (que nunca mais chega), acordar feito homem novo. Que me desculpem os que acreditaram eu já ser homem da esquerda bem acabada. Eu sei, não preciso que me gritem ao ouvido, associar ucraniano a roubo é coisa de direita. Mas, que querem, eu sou de uma esquerda que termina no dia de ir a votos.

Depois - ai o impulso para nos justificarmos e desculparmos -, roubar um amigo até pode ser acto de afecto. Tirando-lhe uma coisa circunscrita que se atira ao vento, é assim coisa tão feia? Do roubo não se passa, pelo menos, ao pecado do orgulho (que, julgo, será pecado menor)? Disseram sim? OK.

Então, eu que não sou ucraniano, deixo-vos, para vossa delícia, este texto (roubado):

”Você sai de casa 6ª feira à noite. Vai jantar com uns amigos. Antes de entrar no carro tira o casaco, dobra-o e mete-o no banco de trás. Sorrateira, aproveitando a sua desatenção, a carteira esgueira-se para o chão, para debaixo do carro.
No restaurante você dá pela falta da carteira. Assusta-se. A carteira tem cem euros, os cartões de crédito e do multibanco, o BI, a carta de condução e mais 31 cartões necessários, no dia a dia, para poder falar com a Saúde, o Fisco, a mesa eleitoral, sei lá que mais.
Hum! Ficou em casa, pensa V. para se acalmar. Ou então, então... só se foi ao tirar o casaco. Mas não, V. não aceita, seria terrível de mais. Ficou em casa, é o que é, pensa V. para não abandonar o jantar, os amigos, para não dar parte de fraco e ir a correr para casa ou para a desgraça.
No regresso, numa ansiedade que cresce na razão inversa da distância que o separa de casa ou do... maldito local onde teve a fatal ideia de tirar o casaco, V. recebe um telefonema. Atende aí faz favor, pede V. à sua mulher. O coração quase rebenta.
Pronto! Encontraram a carteira, sem dinheiro, que enfim ainda era o menos, sem os cartões dos bancos, sem cartão nenhum, nada! só uns cartões pessoais com o seu nome e o seu número de telemóvel que permitiu ao dono do café onde toma a bica e onde o carro estava estacionado lhe telefonar solícito e poder partilhar consigo o estertor da raiva, da dor, das pragas.
Foi um ucraniano!! Mais gritava que falava, a pontos de V. ouvir, a um metro do telemóvel, à beira do colapso.
Caro leitor não se assuste que não foi consigo. Foi comigo. E provou-se. Era mesmo um ucraniano. Homem dos seus trinta anos, com a mulher que anda a dias, que veio três anos depois dele e ainda fala mal o Português, a viver numa assoalhada ao lado do café. Mal cheguei fui à casa do ucraniano.
Abri a carteira, estava intacta. Tudo. Oh céus, tudinho ali, dinheiro, cartões, tudo!
Oh homem, você nem parece deste mundo! Fico-lhe eternamente grato.
Sabe - disse-me o Sr. do café - veio ter comigo, nós falamos de vez em quando, parece-me boa pessoa, mostrou-me um cartão pessoal e perguntou-me se eu conhecia. Olhe, então ele que me procure porque achei a carteira dele. Sem nada, está claro? Perguntei-lhe. Pareceu-me que disse sim. Afinal não. Ainda bem. Dizia o Sr. do café ainda sem acreditar.
Vou olhar para a Ucrânia com outros olhos. Ou ao menos para aquele Homem.”
publicado por João Tunes às 16:11
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2 comentários:
De Joo a 28 de Fevereiro de 2005 às 15:57
Abraço de um perdoado.


De RN a 27 de Fevereiro de 2005 às 21:45
...tem cem anos de perdão. Também eu, quando me parece, assalto blog alheio. Um abraço.


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