Sexta-feira, 25 de Fevereiro de 2005

PENSANDO O MEDO (3)

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Cuba tem um problema económico-ideológico muito grave. O turismo é o motor da economia – com a entrada anual de 2.000 milhões de dólares e ocupação de 200.000 postos de trabalho directos e indirectos. Esta dependência económica obriga a Ilha a ter permanentemente um enorme fluxo de estrangeiros e expor grande parte da população ao contacto com eles, na sua esmagadora maioria oriundos de sociedades abertas. Assim, como preservar o espírito revolucionário?

Mas o marxismo-leninismo tudo pensa porque tudo se sente capaz de entender e resolver. E para um problema, qualquer problema, não há regulamento que não o resolva. Assim, no passado dia 19, um novo regulamento foi emitido pelo Ministro Manuel Marrero e intitulado “Regulamento para as Relações com o Pessoal Estrangeiro no Sistema do Turismo” e que pretende salvaguardar os “princípios éticos, morais e profissionais” dos trabalhadores da hotelaria cubana. E que diz o Regulamento?

Primeiro, os cubanos obrigados a lidarem com os estrangeiros devem limitar os contactos aos “estritamente necessários” (ou seja, apenas em actos convertíveis em divisas), mas, mesmo nesses, devem guiar-se “pela fidelidade à pátria, à legalidade socialista e à política do governo”, mantendo-se em “permanente vigilância para com todos os factos ou atitudes que lesem os interesses do Estado, comunicando de imediato tudo que possa atentar contra a dignidade, a segurança e os princípios da Revolução”. Segundo este princípio, o estrangeiro é, por natureza, um mal necessário mas um ser a evitar e a vigiar. E mesmo assim, nada de língua solta sobre o que pensa de si, do País e da Revolução (porque, no fundo, cada cubano também é um potencial subversivo), devendo “abster-se de difundir, propagandear ou emitir critérios que possam denegrir o prestígio do País”. E, se tentações houverem de alguém fazer perigar a crença na Revolução, é dado o prazo máximo de 72 horas para “comunicar ao seu chefe, qualquer contacto que vise perturbar o prestígio e moral revolucionárias”.

Conviver com estrangeiros é um risco agravado de contaminação. E, assim, convites para refeições ou outros convívios, só podem ser aceites se previamente autorizadas pela hierarquia. E, claro, nada de se meterem estrangeiros em casa, porque convites para visitas ao seu domicílio, essas exigem não só aprovação prévia como passada a escrito.

Prendas e gorjetas de estrangeiros passaram a ser também objecto de proibição. O que se receber em prendas, deve ser entregue à chefia. Nada se poderá aceitar em moeda, cheque ou cartão de crédito.

Medo ou paranóia perante o estrangeiro? Sobretudo o medo da contaminação por contágio. Ou a noção evidenciada pela fragilidade do apego revolucionário. Ou uma Revolução que sabe que perdeu mas não desiste de se impor.

Nota: Na primeira versão do post coloquei link para a notícia completa da EFE que entretanto passou a funcionar para uma notícia diferente (agradeço ao comentador que chamou a atenção para isso). Mas, pelo que dei conta pelo Público, a notícia aqui tratada já é detalhadamente referida na imprensa nacional.
publicado por João Tunes às 17:07
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3 comentários:
De Joo a 26 de Fevereiro de 2005 às 15:21
Agradeço ao Mário Lino, também, a nota sobre a ineficácia do link. Ele passou a respeitar a outra notícia. Mas o assunto já é tratado na imprensa portuguesa de hoje. Abraços aos dois comentadores.


De Mrio Lino a 26 de Fevereiro de 2005 às 13:48
Post muito ilustrativo do grande anquilosamento a que chegou o regime cubano, e que, infelizmente, contradiz profundamente as promissoras expectativas que muitos de nós tivemos da revolução cubana.
O que quer dizer que, de facto, à revolução cubana e ao seu desenvolvimento faltaram elementos essenciais para que pudesse validamente florescer e afirmar-se.
Nota à margem: o link indicado para ver notícia completa na EFE não funciona. É possível corrigi-lo?


De IO a 25 de Fevereiro de 2005 às 18:08
Obrigada por nos dares a ler este conjunto de 'posts'! _ um beijo, IO.


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