Quarta-feira, 23 de Fevereiro de 2005

CINCO PONTOS SOBRE A QUESTÃO DO ABORTO

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1. Sempre fui pela descriminalização da prática do aborto, defendendo que compete às instituições de saúde pública a prática da interrupção voluntária da gravidez. Porque nenhuma gravidez não desejada deve ter como castigo mais uma criança no mundo. Porque este acto de não penalização de uma criança não desejada nunca deve penalizar a mãe em termos selectivos de cuidados de saúde, estatuto social e posses económicas.

2. Assumindo, naquilo que penso sobre a questão do aborto, a exclusão de qualquer consideração de simpatia, mínima que seja, para com qualquer mulher que entenda que a sua barriga é um depósito irresponsável e de posse unipessoal de gestação, com o direito a abortar pelo genético privilégio de posse de um útero que gere como o faz com o direito aos cigarros que fuma ou não fuma ou com o direito às bicas que bebe ou não bebe. Porque sei que a minoria que mostra a barriga dizendo “aqui mando eu” é a vergonha de qualquer mulher-mulher que sofre quando decide interromper uma vida a começar a crescer dentro de si, desejada ou não. E é este sofrimento de abdicação da mulher que decide abortar que transforma o direito de abortar em causa nobre. A proteger e nunca a penalizar. E a não banalizar, para que conserve o direito a ser direito.

3. Houve, mal feito ou bem feito, um referendo sobre o aborto. Ganhou o Não. Ficámos com a vergonha de estarmos amarrados à legislação mais retrógrada sobre o assunto. Mas, aí, o ónus cabe a todos os que não souberam ganhar a batalha do convencimento. Agora, só um novo referendo pode substituir um Não por um Sim. É uma proposta bandalha, em termos democráticos, querer que “se ganhe na secretaria” (utilizando uma maioria de deputados) um campeonato perdido por consulta popular. Uma nova atitude perante a questão do aborto terá de ser ultrapassada através de uma luta cultural que depois se legitime pela expressão da vontade cidadã. Só a irresponsabilidade do Partido do Jerónimo aponta para a resolução vanguardista quanto a uma questão sobre a vida.

4. A questão do aborto, sendo premente, não é a principal e primeira questão na agenda. Sobretudo, não deve ser oferecida à direita como meio e causa de recomposição mobilizadora após a derrota estrondosa de 20 de Fevereiro. A causa é séria e suficientemente importante para ser defendida em luta a travar para ganhar. Só a irresponsabilidade do Bloco explica a pressa na convocação urgente e prioritária do referendo sobre o aborto. No caso, irresponsabilidade com ónus especial quando o Chefe Louçã (face a Portas) lançou a célebre frase contra o aborto que ultrapassou, como reaccionário tout court, o mais retrógrado dos nossos curas vaticanistas. E se Louçã precisou de tempo para se redimir, dê-se um pouco mais tempo a outros, menos ilustres, para serem mais esclarecidos, no mínimo, que Louçã.

5. Felizmente, o PS ganhou com maioria absoluta. Também para ganhar a causa pelo aborto livre, assistido e responsável.
publicado por João Tunes às 23:39
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4 comentários:
De Luis Dias a 13 de Novembro de 2005 às 18:14
"Porque nenhuma gravidez não desejada deve ter como castigo mais uma criança no mundo"

Esta frase para mim explica a consideração que o bloguista tem para com a criança em questão. A inumanidade presente pelo aqui defensor da "despenalização" (leia-se legalização) deve ser tomada como referência por todos aqueles que querem uma opinião reflectida e ponderada sobre este assunto tão mal falado. Quando se diz que uma criança é um castigo, percebe-se o inferno em que está mergulhado o espírito do autor e a importância a que se lhe deve conceder as suas ideias.


De cacusso a 24 de Fevereiro de 2005 às 19:49
Subscrevo integralmente as suas palavras!


De Joo a 24 de Fevereiro de 2005 às 15:35
Viver com fantasmas tem o grande inconveniente de não nos deixar abrir os armários. Abram-se armários e janelas, permita-se que o ar fresco da esperança entre. E nem todo o vento sopra do Restelo...


De IO a 24 de Fevereiro de 2005 às 14:51
'Também para ganhar a causa pelo aborto livre, assistido e responsável'_ resta saber se esta questão também estará condicionada ao 'calendário de Guterres'... na crítica ao BE, estou de acordo.


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