Quarta-feira, 27 de Abril de 2005

COLIGAÇÕES MARTELADAS PARA QUÊ?

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As Coligações entre Partidos não são fatalidades. Nem obrigações. Existem quando existem, existindo as condições (vontades leais servidas com boa fé, comunhão mínima de projectos, capacidade de articular a tradução concreta em lugares e responsabilidades). Uma Coligação mal parida é o pior que pode acontecer. Porque então, como fonte de equívocos, acaba por funcionar mal e, por isso, é um engano servido aos eleitores.

Do ponto de vista da Esquerda, é lamentável que a “nossa esquerda” não se entenda no confronto com a Direita nas próximas eleições autárquicas (sobretudo nas grandes cidades, no mínimo em Lisboa e Porto). Mas, pela dinâmica desconfiada que se estava a gerar, é bom que as forças de Esquerda se apresentem separadas. Pesem os riscos de a Direita beneficiar disso, no mínimo, a escolha eleitoral será mais genuína. Mais saudável politicamente, portanto. E com o PS no poder governativo, o PCP a reforçar a sua caracterização m-l e o BE em permanente festa de crescimento, o desfecho era mais que previsível.

As últimas eleições, no concelho de Lisboa, deram 42,28% ao PS, 8,71% ao BE e 8,23% à CDU (PCP + PEV). Exigir, como fez o PCP, que na Coligação para a CML houvesse paridade entre PCP e PS e entre o BE e o PEV, não tem a mínima seriedade política. O PEV, que nunca se soube quanto vale por si (deve valer tanto como o POUS da Carmelinda…), equiparado ao BE, que teve uma votação superior à CDU, não lembra ao diabo. Equiparar o PCP a uma força (PS) que vale mais que cinco vezes os seus votos, seria uma aldrabice atirada à cara do eleitorado. Nestas condições, a Coligação pretendida pelo PCP não passaria de obra de engenharia eleitoral sem qualquer correspondência com as inclinações do eleitorado. Uma burla, portanto.

As Coligações de Esquerda foram-se. Uma pena. Mas antes isso que martelar verdades e vontades eleitorais.
publicado por João Tunes às 02:27
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À ESPERA DO SOCIALISMO

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Segundo Vasco Gonçalves, vamos viver mesmo em Socialismo (socialismo a sério, como se calcula). Mas, precisou ele, quando o povo norte-americano assim o decidir.

Não discuto a sábia previsão. Mas, com todo o respeito e se o Senhor General me dá licença, eu sento-me. A idade não me permite ficar todo o tempo de pé à espera do socialismo norte-americano.
publicado por João Tunes às 01:12
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Terça-feira, 26 de Abril de 2005

NOTAS DE UM ACHADIÇO NO MEIO DOS PAMPILHOS

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Como disse, passei o último fim-de-semana armado em congressista no 2º Congresso de Pampilhosa da Serra (*) (Beira interior, distrito de Coimbra). Não sendo filho da Serra do Açor, apenas um seu “genro” (daqueles que, por lá, chamam de “achadiço”), por ali tenho sido tão bem tratado, apaparicado mesmo, que me sinto lá como em casa minha. E já disse um dia que, sendo um vadio evadido da Serra do Marão, no Açor me sinto com aconchego de serrania como um puto a mamar em teta generosamente cedida para compensar mãe-serra distante e relapsa a aconchego de colo.

O concelho da Pampilhosa da Serra está na lista dos “concelhos críticos” pela interioridade que ficou fora das rotas das grandes vias de comunicação. Com uma enorme extensão, dispersa por mais de uma centena de localidades, macrocéfala na sua pequenez em habitantes (metade dos 5.000 habitantes, vivem na sede do concelho), zona de floresta flagelada constantemente pelos incêndios estivais e pelo avanço do matagal, despovoada e envelhecida (metade dos residentes são pensionistas), com a maioria da população activa ao serviço da Câmara e da Santa Casa da Misericórdia (em termos privados, realce apenas para alguma construção civil e algum trabalho florestal), carente de jovens, meninos e meninas (a população escolar em redução drástica e próxima da centena e meia), culturalmente dominada pela resignação e pessimismo católico, no último lugar da lista do sucesso e aproveitamento escolar, o concelho vive uma fase de declínio a ameaçar o não retorno.

E, no entanto, Pampilhosa da Serra tem enormes potenciais e um notável vigor de instinto de sobrevivência. Desde logo, Pampilhosa da Serra tem generosos recursos. Primeiro que tudo, as suas gentes. Que ali são de trabalho, cordatas, educadas, hospitaleiras e com inesgotável património oralizado através de lendas, narrativas e fantasias (a agrura e a dureza de vida, aliadas ao enquadramento paisagístico mais os odores da floresta e da mata, desenvolveu-lhes um infindável gosto pelo conversar e contar, transformando a imaginação e os medos em fantasia poética). Depois, tem belezas naturais excepcionais (serra e água) com a vantagem que resulta da desvantagem do atraso e do isolamento – quase tudo está em bruto e por explorar, aberto à descoberta. E, apesar do flagelo dos fogos, a sua floresta vai-se fechando nos seus tesouros abandonados, cada vez mais escondidos, mas que esperam colheita. Para mais, apresenta uma base de suporte energético “limpo” – cursos de água abundantes, vento, larga exposição solar e matéria para biomassa.

O turismo de serra e água tem ali um imenso potencial atractivo. A floresta ali está para fins bem mais nobres que arder no verão. Mas falta a Pampilhosa da Serra, o principal recurso que é o que faz andar o mundo – gente. Hoje, foi já ultrapassado o ponto crítico de bloqueio de uma herança de abandono – não há gente porque não havia empregos, não há empregos porque não há gente para empregar. E a natalidade atingiu um ponto tão baixo que não é possível, com a população residente, impedir o despovoamento a tender para se transformar num local de sobrevivência dos inactivos que demoram a morrer.

O Congresso, que reuniu 300 pessoas, foi um grito de alerta, de levantamento de soluções e de apelo de concentração de energias para que se evite que o concelho morra. Verdade que foi um grito a soar um pouco a túmulo de um pedaço de País, mas ainda com o vigor do instinto de sobrevivência a puxar pela imaginação e pela vontade de manter o País inteiro e solidário. Ideias, imaginação, projectos esboçados, não faltaram porque aquilo é gente contaminada pelos apelos trazidos pelo vento serrano de convite a conservarem-se terras e gentes. E a serranos daqueles, é difícil vergar-lhes a teimosia de andarem em passo largo. Vem-lhes do hábito das longas caminhadas, serra acima e serra abaixo. Acredito que vão sobreviver porque não se irá permitir que esburaquem mais este País já de si tão encolhido. Oxalá encontrem quem lá invista e quem os ajude a renovar o tecido humano.


(*) – O nome de Pampilhosa provêm dos abundantes pampilhos existentes nas suas serranias e que é nome dado aos malmequeres selvagens. E chama-se Pampilhosa da Serra para a distinguir de outra localidade chamada Pampilhosa do Botão. Mesmo assim, frequentemente, há quem confunda as duas localidades.
publicado por João Tunes às 18:23
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O MELHOR POST SOBRE 25 DE ABRIL

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Mais que a rememória, mais que saber onde se estava e como se viveu esse dia, o que ele trouxe a quem caminhava vindo das trevas, é a herança deixada, a imensa alegria de saber que, cada dia passado desde então, mais e mais nossos concidadãos nascem e vivem em liberdade, tornando a nossa lembrança a negro num perfeito e estúpido absurdo, o anacronismo de se ter vivido numa sociedade sem respiro de liberdade.

Por isto é que, melhor que ir passear cravos de saudade na Avenida da Liberdade, prefiro comemorar o 25 de Abril com o cravo da minha alegria rubra ao ver os jovens indiferentes à banalidade de se ser livre. Eles acham que não pode ser de outra maneira. Então, a obra está feita. Valeu!

Este sentimento avivou-se-me ao ler este magnífico post que li do Paulo Tomás e que, com a devida vénia, transcrevo:

"Pai o que é a ditadura ?
(Pergunta de uma criança de 10 anos ao seu pai, este ano.)"


Adenda: Agradeço ao Lutz ter "completado", com notável elegância e poder de imagem, este meu post. De facto, a economia do meu texto e o sentido de valorização pretendida pode prestar-se a interpretações que seriam profundamente injustas se se julgasse como marcando distância perante os que entendem comemorar, onde bem entenderem e da forma como entenderem, a data histórica da nossa libertação. Estou com eles e com aqueles que, nascidos em liberdade, não acham que a têm de comemorar porque o banal vive-se apenas. Subscrevendo tudo o que o Lutz postou, está lá a "metade" que aqui terá faltado e que completa, em sentido, este post.
publicado por João Tunes às 12:53
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MAIS SANTOS PARA A CARTEIRA DE ENCOMENDAS DO CARDEAL SARAIVA?

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Afastado das notícias, tento recuperar algumas das novas atrasadas, quando não perdidas. Leio, não sei onde, que o Vaticano recomendou aos funcionários católicos espanhóis dos Registos Civis que, invocando a objecção de consciência, se recusem a cumprir a lei aprovada que permite o casamento entre homossexuais. Com firmeza, e se necessário, pelo martírio da perda de emprego.

Com isto, a Igreja irá, estou certo, porque certo estou do sentido de obediência católica dos crentes nesta crença, coleccionar mais uns tantos santos na sua colecção, obrigando a um ciclo terrível de desgaste profissional ao bom do nosso Cardeal Saraiva – o sumo-sacerdote da burocracia dos processos de santificação. Com a novidade de ser feito um justo e adequado up-grade das categorias de santidade, agora alargada ao segmento dos desempregados – aqueles que, por amor ao Vaticano, desacatem as leis ímpias do demo Zapatero. O que alarga o conceito sacrificial da Santa Madre Igreja aos deserdados do campo trabalhista.

Se, até agora, santo ou santa não eram (disparate!) quem tinha salários em atraso, sofreu o assédio patronal para rescindir o posto de trabalho, foi penalizado pela militância sindical, sequer a escriturária despedida porque deu uma estalada no director que lhe apalpou o rabo, não sendo de ligar ao contratado a prazo não renovado porque se inscreveu no sindicato, menos ainda aqueles que queimaram noites em vigília para que o patrão não levasse as máquinas da empresa falida para outra aberta ali mesmo ao lado, excomungado devendo ser o que deu um tiro nos cornos porque – aos quarenta anos – lhe disseram que estava velho de utilidade profissional e tinha de dar lugar aos novos, agora, certo e seguro, teremos santificados os funcionários que se ofereçam em martírio à recusa na consagração contratual dos homo-casamentos em Espanha, na velha e eterna Espanha que herdou a abençoada cruzada franquista. Já não era sem tempo, digo, que a santidade se lembrasse de contemplar o mundo laboral.
publicado por João Tunes às 00:23
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Sexta-feira, 22 de Abril de 2005

ATÉ AQUI, POR AQUI...

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Serra do Açor (Beira)
publicado por João Tunes às 14:53
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COMO DE ANTIQUADO NÃO PASSO...

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Viva o 25 de Abril !

(e até ao meu regresso)
publicado por João Tunes às 11:20
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O REVERSO DA COUTADA MÉDICA

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Se há falta de médicos no burgo, acho muitíssimo bem que se importem médicos. Venham eles. Desde que sejam médicos. Queiram ou não os médicos do burgo patrioticamente já estabelecidos no burgo. Digo-o, não por ser contra os médicos do burgo mas pelos doentes. E por questão de maioria – são mais os doentes que os médicos. Portanto, em prevalência de interesses, siga-se a regra da maioria.

Mas não deixa de ser caricatural a situação a que se chegou por via do funil do numerus clausus. As altíssimas notas exigidas para se entrar nas Faculdades de Medicina faziam entender que só a um jovem génio muito genial e muito aplicado lhe era possível entrar no templo médico. Preparou-se, assim, uma geração de médicos geniais, mesmo que fosse para atender um surto de gripe no SAP do bairro. E quem sou eu para duvidar que todos os médicos da geração numerus clausus são médicos de alto génio, sábios mesmo, logo quando caloiros do internato?

Criou-se essa categoria de “médicos geniais” e agora importam-se médicos da bitola dos que não encontram emprego noutros países. Bonito serviço. Nice, mesmo. As corporações universitárias que criaram e conservaram o biombo da genialidade podem limpar as mãos à parede. Agora desengomem-se. E os doentes que sejam atendidos.
publicado por João Tunes às 11:12
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ESTE MESMO

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Um texto que, sem saber, andava a apetecer-me ler - este.
publicado por João Tunes às 00:21
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Quinta-feira, 21 de Abril de 2005

NA HORA AMARGA DO COMPADRE ISIDORO

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Muitas são as boas causas que podem levar um blogue a fechar ou a definhar, ficando em ritmo do lá vai um. Saturação, luta contra o vício, a torneira escalavrou e deita água para o chão, outro e melhor meio de lidar com as palavras, não estar para aturar selvagens do fel que nos sarnam a cachimónia. Tantas que eu sei lá. Tantas e tão respeitáveis em si mesmas que muito me avenho com a dificuldade da escolha.

Mas existem más razões, razões deploráveis, para que a um blogger lhe dê para a secura. Entre as malvadas das razões, está a lei do tempo em estilo fast (em tudo, até no food), do voltar costas à bravura dos sonhos, da supremacia do comezinho medíocre sobre a valorização do desafio.

Um dos meus blogues de eleição, onde a palavra e a alma melhor se entendem, começou a pingar devagar, foi deitando umas gotas de vez em vez, até que pareceu passar-se para o mundo dos blogues finados, sem tempo de se despedir dos amigos e admiradores feitos, apenas com uma mensagem de amargura de remate. Afligi-me, quis saber. Até porque tendo conhecido a pessoa feita gente, na primeira meia hora de falarmos fiquei a sentir que nos conhecíamos de uma data de incarnações anteriores. Outros, o mesmo terão feito.

A explicação pelo silêncio e amargura passada a post lá veio: “Coisas que só acontecem aos taberneiros que às leis do mercado e das suas cíclicas e anunciadas crises preferem a poesia do tinto e dos rabinhos de porco com grão. Coisas de taberneiro naif. Coisas que só acontecem aos taberneiros que teimam que o Alentejo não deixa de ser Alentejo, nem o é menos – antes pelo contrário – se trajar a modernidade a que também tem direito.” E remata com este grito que me encheu o peito de desespero solidário: “Mesmo que aborte, fracasse, que vá à vida, não tenho a mínima dúvida que a Sulitânia Casa de comes-e-bebes é um marco no modernismo alentejano. Valha-nos isso!!!”

Pois a Sulitânia está a passar um mau bocado. Apesar de entendidos assim escreverem. É isso.

A estima tem deveres. Espero bem que a Sulitânia arrebite e dê um sorriso tranquilo nas bochechas do Compadre Isidoro. Que bem o merece. Pela minha parte, tarda nada, lá estarei a bater-lhe à porta para dois dedos de conversa e saborear gastronomia feita cultura de saber alentejano. Quem me faz companhia (claro que não precisa de ser na mesma altura!)?
publicado por João Tunes às 20:59
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